15 veículos se posicionam contra anúncios de bets
Veículos de jornalismo publicaram, nesta terça-feira, 21, editorial sobre contrariedade à publicidade do setor

Veículos de jornalismo se posicionam contra anúncios de bets (Arte gerada com IA)
Um grupo formado por 15 veículos de jornalismo se uniram e publicaram, nesta terça-feira, 21, editoriais se posicionando oficialmente sobre o porquê não aceitam anúncios de bets. Integram a iniciativa Agência Lupa, Agência Pública, Alma Preta, Amado Mundo, Aos Fatos, Manual do Usuário, Matinal, Meio, Mobile Time, My News, Notícia Preta, NeoFeed, Plural, Portal Imprensa e Reset.
A proposta da ação é ampliar o debate sobre a presença ostensiva de anúncios de casas de apostas de quota fixa na mídia e o papel do jornalismo diante deste cenário. O tema ganhou manchetes durante a Copa do Mundo, quando Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), vinculada ao Ministério da Justiça e da Segurança Pública, abriu investigação para apurar possíveis irregularidades na divulgação de apostas esportivas durante as transmissões.
Segundo Natalia Viana, cofundadora e diretora executiva da Agência Pública de Jornalismo Investigativo, a iniciativa partiu de conversas com diretores e lideranças de diversas redações que afirmaram serem acossados cotidianamente por bets oferecendo anúncios, a ponto de alguns simplesmente bloquearem o remetente.
“Mesmo assim, em um contexto de crise financeira da imprensa como um todo, estes veículos decidiram não aceitar este tipo de publicidade porque acreditam que ela só pioraria a atual crise social que o Brasil enfrenta por causa das bets. Anúncios que incitam as pessoas a jogarem, a apostarem ‘agora’, que fazem apelo emocional e até que oferecem odds são absolutamente contrários ao que os nossos próprios repórteres têm apontado: a crise está desenfreada. Assim, é preciso que a sociedade se mobilize. É o que estamos fazendo”, afirma.
Sob o ponto de vista dos membros da iniciativa, ao aceitar propagandas que incentivam apostas, estariam contradizendo informações apuradas por suas equipes. Mesmo com os recentes avanços na regulação dos anúncios de bets, com a obrigatoriedade de mensagens de alerta, as organizações mantêm a decisão de não veicular anúncios deste tipo.
Além do novo regramento para a publicidade, na semana passada, as prefeituras do Rio de Janeiro e de Belo Horizonte anunciaram a proibição da propaganda de bets em espaços públicos que dependem da concessão municipal. A proibição, no Rio de Janeiro, envolve qualquer forma de divulgação, incluindo logomarcas, aplicativos e campanhas. Na capital fluminense, a poder público já começou retirar as peças publicitárias.
Já em Belo Horizonte, o decreto nº 19.654 também proíbe a instalação de peças em um raio de cem metros de escolas, museus, equipamentos e serviços públicos destinados ao atendimento de crianças, adolescentes e jovens. Ao Meio & Mensagem, a Prefeitura de São Paulo informou que o prefeito Ricardo Nunes sancionará o Projeto de Lei 560/2025, assim que a proposta for aprovada pela Câmara Municipal. O texto, que atualmente tramita na Comissão de Constituição e Justiça, prevê a proibição da publicidade de bets especificamente em eventos esportivos realizados no município.
Outro objetivo do grupo é que a discussão sobre os anúncios de bets, em especial nos sites jornalísticos, ganhe as ruas. “Não existe lado positivo em um anúncio de bets e associá-lo a conteúdo jornalístico, em um momento de perda da reputação e ataques constantes aos jornalistas, pode, inclusive, minar a credibilidade do jornalismo. Está na hora de enfrentarmos este tema com a seriedade que ele merece”, complementa Natalia.
Levantamento da organização de fact-checking Aos Fatos analisou quase 50 mil anúncios nativos em sites de notícia brasileiros e verificou que sete em cada dez anúncios continham promessas de ganhos extraordinários, apelo emocional ou oferta de vantagens exclusivas aos apostadores.
Leia abaixo o texto base do editorial publicado pelos 15 veículos em seus sites e redes sociais.
Aqui não tem propaganda de bets
Quando a saúde, o bem-estar e o orçamento das famílias brasileiras estão em risco, é dever do jornalismo profissional se posicionar.
Quando um setor econômico traz mais malefícios do que benefícios à população, é com o jornalismo que a sociedade conta para investigar os atores envolvidos e cobrar providências das autoridades.
É esse o caso das casas de apostas online, ou bets.
Um estudo do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo indica que as bets são hoje o principal fator de endividamento dos brasileiros, cinco vezes mais que os cartões de crédito e empréstimos.
Os recursos oriundos do Bolsa Família gastos em bets chegaram a R$ 3 bilhões em agosto de 2024, segundo o Banco Central. O Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) aponta que 1,8 milhão de assistidos usaram o cartão do programa Bolsa Família em casas de apostas..
Dados econômicos apontam para uma epidemia. Segundo o Instituto Locomotiva, um terço dos apostadores já estavam endividados em 2024 e 45% afirmaram que as apostas já causaram prejuízo, ao mesmo tempo em que os números de afastamentos no INSS por ludopatia – compulsão por jogos – deu um salto estratosférico, de mais de 2000%.
Liberado em 2018 e apenas regulamentado em 2023, o setor de apostas online reuniu neste ínterim poder econômico e político, arregimentando grande influência no Congresso que impede o avanço de matérias regulatórias.
Em consequência, os lucros deste setor são hoje exorbitantes. E permitem influenciar, através de patrocínios e apoios, variados setores da sociedade, como é o caso dos influenciadores digitais e celebridades do mundo do entretenimento e dos esportes.
As empresas de bet investiram só em 2024, segundo a Kantar Ibope Media, R$ 2,3 bilhões em compra de mídia no Brasil — 58% disso pra TV e 42% pro digital. Já a receita bruta dessas empresas chegou a R$ 37 bilhões no ano passado.
Anúncios de bets incentivando apostas estão por todos os lados: em jogos e programas de TV, sites da internet, jornais, revistas, shows, festas populares. Empresas de apostas online batem cotidianamente à porta de empresas jornalísticas e até de organizações sem fins de lucro oferecendo anúncios e parcerias.
Repudiamos publicamente essa influência, sobretudo sobre o jornalismo, que deve ser, antes de tudo, comprometido com o interesse público. Nosso papel é o da defesa da sociedade e, portanto, o de investigar, denunciar com independência o poder indevido do setor e exigir das autoridades regras mais estritas às propagandas e à atuação das bets.
Ao aceitar propagandear os jogos online, consideramos que estaríamos contradizendo informações apuradas com rigor pelas nossas equipes.
A seriedade da atual epidemia que tem vulnerabilizado, sobretudo, os mais pobres, não pode ser relativizada por conta de interesses comerciais, sob pena de minar a credibilidade do jornalismo.
Mais do que isso: entendemos que os veículos de jornalismo precisam se posicionar institucionalmente contra a influência crescente das bets no debate público – seja pelo lobby, seja pela compra de espaços publicitários. Deve, ainda, cobrar das autoridades ações para proteger a população da propaganda e da influência pública das Bets, assim como regular sua atuação e trabalhar para mitigar os danos já causados.
Para combater essa epidemia os setores público e privado e a sociedade organizada têm de atuar conjuntamente e com a urgência que a questão social exige.

