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A conta da liderança tóxica começou a chegar. E já vem tarde

Liderança não é o privilégio de poder fazer qualquer coisa sem ser contestado. É a responsabilidade de construir resultados sem destruir pessoas pelo caminho

André Chaves

Sócio fundador da Future Hacker/Leme Growth 22 de outubro de 2026 - 6h00

Durante décadas, parte do mercado de comunicação confundiu liderança com intimidação, personalidade forte com truculência e resultado com licença para humilhar.Executivos foram promovidos não necessariamente pela capacidade de construir o futuro, mas pela habilidade de impor medo, silenciar equipes e concentrar poder. Gritos viraram método de gestão. Assédio moral foi tratado como pressão por resultados. Arrogância, como sinal de genialidade.Agora, começamos a assistir aos primeiros sinais de que esse modelo pode, finalmente, ter consequências.

O caso recente envolvendo o CEO de um dos maiores grupos de comunicação do país é emblemático. E seria um erro reduzir tudo a mensagens indecorosas ou a episódios pontuais de comportamento inadequado.O problema é muito mais profundo: são décadas de truculência na gestão, de ambientes profissionalmente tóxicos e, muitas vezes, de uma visão estratégica tão limitada quanto o ego de quem comandava. Porque há uma ironia cruel nisso tudo: alguns dos líderes que mais exigiam excelência eram justamente aqueles que mais destruíam o potencial das pessoas e das organizações que dirigiam.Conheci esse mercado desde o início dos anos 1990. Naquela época, em um ambiente marcado por hierarquias rígidas, pouca transparência e relações de poder quase inquestionáveis, demissões desse tipo seriam praticamente impensáveis.

O cargo, o sobrenome corporativo e a capacidade de gerar receita funcionavam como escudos. O silêncio era parte do contrato não escrito.Mas o tempo muda as regras. As pessoas mudam. E a sociedade começa a cobrar das empresas uma coerência que antes era convenientemente ignorada.Nenhum resultado deveria comprar imunidade moral. Nenhum cargo deveria garantir impunidade.

Que bom que o mercado começa a mudar.

Ainda é cedo para comemorar: responsabilizações pontuais não significam que a cultura tenha mudado. Mas é um sinal de que o poder já não protege como antes e de que o custo de liderar pelo medo pode, finalmente, começar a superar os benefícios da omissão.

Liderança não é o privilégio de poder fazer qualquer coisa sem ser contestado. É a responsabilidade de construir resultados sem destruir pessoas pelo caminho.O resto não é liderança.

É abuso de poder com um bom título no LinkedIn.