5 dicas para falar com a imprensa
A imprensa tem seu valor intrínseco, mas empresas que precisam dela para divulgar-se por algum motivo muitas vezes ignoram como ela funciona e pensam que é a casa da Maria Joana. Veja porque não é.
Este post foi inspirado num email que apareceu na minha caixa postal de um gringo que eu nunca havia ouvido falar chamado Peter Shankman e o headline era “No one cares if you painted your conference room”. Achei a chamada ótima e fui ver do que se tratava.
Shankman é um advisor de assessorias de imprensa, tem um blog onde dá dicas de como ser bem sucedido junto aos editores e aos veículos de comunicação, se o seu objetivo é ser notícia.
Uma vez mais, o título do email é ótimo e resume com humor o que parece que muita gente ainda não percebeu sobre o que pode vir a interessar aos jornalistas que atuam nas redações mundo afora. A pintura nova da sua sala de reuniões pode até ser relevante para você e a vida intra-muros da sua empresa. Mas para por aí.
Deveria parecer óbvio, mas não é. Infelizmente, tanto assessorias de imprensa como empresas em geral acreditam que podem transformar assuntos e fatos irrelevantes em destaque na mídia, simplesmente porque aquilo importa ao seu próprio umbigo.
Fato é que nosso amigo me instigou a escrever este post que, em verdade, tem o mesquinho objetivo de ajudar a que as assim chamadas fontes me ajudem a fazer meu trabalho direito e de forma consequente junto a minha audiência.
Faço desde já um statement bem claro aqui, que é meu mais absoluto respeito ao trabalho das assessorias de imprensa, que considero um elo vital na cadeia da informação em qualquer lugar do mundo. Tem boas e ruins, mas isso tem em todo lugar e em toda atividade. Fato é que sem elas, parte do que nós jornalistas apuramos talvez nem chegasse a nós, ainda mais em tempos de redações reduzidas, em que a nossa capacidade de cobertura se reduziu drasticamente.
Isto posto, vamos as minhas 5 dicas pessoais, baseadas em uma carreira medíocre, mas já com seus 50 anos de estrada. Por osmose que seja, alguma coisinha aprendi.
- Não seja burro – essa dica é bem clara e objetiva, certo? Mas vou detalhar. Se você pensa que nas redações atua apenas gente tacanha que escolheu o jornalismo porque não tinha capacidade para fazer algo melhor, pense de novo. Como toda profissão, mal ou bem, jornalistas se especializaram no que fazem e achar que qualquer release sem sentido contendo assuntos de nenhuma relevância vão encantar-nos, não perca seu tempo. Ser inteligente aqui é … bem … o oposto de bancar o espertão, respeitando antes e acima de tudo a capacidade profissional de quem lida o tempo todo com informação e tem mais o que fazer do que publicar asneiras
- Separe relevante do irrelevante – Essa é mais complicada. Afinal, o que é relevante para a imprensa? É aquilo que você, como leitor, considera importante e que investiria um pedacinho que fosse do seu tempo para parar e se interessar. E após terminar a leitura sentisse seu bom senso e sua capacidade de pensar o mundo recompensada. Claro que isso é subjetivo e o que é interessante para uns não será para outros. Ainda assim, a regra básica é seguir a primeira regra aí de cima e se colocar no lugar da audiência, não no lugar do seu umbigo.
- Tenha um senso mínimo de adequação editorial – Se você desconhece o escopo editorial do veículo, nem fale com ele. Ou antes de falar com ele e lhe enviar informações, entenda sobre o que ele fala e como aborda seus temas. Recebo releases de dezenas e dezenas de assuntos que nada têm a ver com o que interessa aos meus leitores ou que se adeque ao que publicamos por aqui. Eu e certamente todos os jornalistas. Erro das assessorias, neste caso. Por preguiça ou simples incompetência.
- Redija um release com a mesma isenção que se exige de quem vai publicá-lo – Há uma forte tendência de se imaginar que releases bons devem ser peças de enaltecimento quase publicitário do objeto tratado. Muitas vezes essa inadequação resulta de exigências descabidas dos clientes a suas assessorias de imprensa. Mas se, de alguma forma, esse tipo de release bobão chegou as redações via assessores de imprensa, alguma responsa cai também na conta deles. O fato é que bom jornalismo cabe perfeitamente dentro de bons releases e tanto os clientes como suas assessorias de imprensa deveriam se aprimorar em produzir conteúdos editorias com a mesma qualidade que gostariam de ver quando o objeto de sua divulgação se tornasse público. A melhor forma de saber se um release tem qualidade jornalística de alto padrão é imaginar se ele seria publicado na íntegra, sem nenhuma alteração, pelos grandes editores e jornalistas que você respeita. Aí, tá bom.
- Não espere que seu release seja publicado – Isso mesmo. Envie imaginando que ele será considerado em meio a um sem número de outras coisas e que nem sempre ele terá a relevância exigida pelos veículos para os quais foram enviados. Respeite esse critério de seleção, porque afinal, foi sobre ele que se construiu o conceito de imprensa livre. Siga gerando fatos relevantes e eles serão reconhecidos, quase que inevitavelmente.
Termino considerando que existem redações e redações, veículos e veículos, editores e editores, jornalistas e jornalistas. Tem bom e tem ruim, como já comentei aqui. Mas para o objetivo deste meu texto, o mais relevante é entender que se, como cidadãos, nos inquietamos tanto com as chamadas fake news, com o jornalismo medíocre, com a má qualidade de apuração do que muitas vezes sai na imprensa, é sempre bom lembrar também que quando você tem alguma coisa para publicar na mídia, você passa imediatamente a ser parte igualmente responsável pela qualidade e idoneidade dessa cadeia imensa (e cada vez mais complexa) que é a geração e divulgação dos fatos nas sociedades contemporâneas.
Você também é um editor.
(*) Abaixo, se interessar, o instigante email que recebi do Peter. E lá no final, o link que leva para os vídeos que ele produz.
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Hey,
When you’re getting ready to pitch the media, you need to be clear on this:
What’s the actual story you’re pitching?
And ask yourself honestly: Will it be worth it to anyone outside the walls of your office?
Remember to make it interesting – Keep it in line with what the reporter covers – Make sure you’re giving them something of value.
And yes, sometimes that requires pushing back at management who believes that every single thing they do is newsworthy.
Breaking news: It’s not.
Be smarter.
Talk soon,
– Peter
P.S. I did a FB Live today about how to tell if a story is worth pitching with five tips straight from a reporter. You can check out the replay here.