Da glamourização do excesso à responsabilidade legal
Empresas que alinham desempenho com sustentabilidade humana fortalecem reputação, reduzem passivos trabalhistas e constroem vantagem competitiva em um mercado que disputa talentos com tecnologia e creator economy
A entrada em vigor da NR-1, atualizada pelo Ministério do Trabalho e Emprego, não é apenas uma exigência técnica. No mercado de comunicação, ela atinge diretamente o modelo de gestão que por décadas naturalizou pressão extrema, jornadas prolongadas e a romantização do excesso como combustível criativo. Ao exigir que riscos psicossociais, como estresse crônico, assédio, sobrecarga e burnout, sejam formalmente identificados e gerenciados, a norma transforma em obrigação aquilo que sempre foi tratado como custo invisível do setor.
Os dados já indicavam a gravidade do cenário. O Instituto Nacional do Seguro Social registra crescimento consistente nos afastamentos por transtornos mentais, e a Organização Mundial da Saúde reconhece o burnout como fenômeno ocupacional. Em comunicação, isso se traduz em alta rotatividade, perda de talentos, queda de produtividade criativa e crises internas que rapidamente se tornam públicas.
Durante anos, esses temas circularam quase de forma clandestina, em grupos fechados de profissionais, fóruns anônimos e comunidades paralelas onde relatos de assédio e colapso emocional eram compartilhados longe dos holofotes. Movimentos como o britânico Time To e debates envolvendo a cultura interna de grandes redes, como a WPP e a Ogilvy, ajudaram a expor uma realidade que o glamour do mercado insistia em esconder.
A NR-1 coloca um espelho diante das agências, produtoras e áreas de marketing. Se é obrigatório mapear riscos físicos em um estúdio, também passa a ser obrigatório mapear riscos emocionais decorrentes de metas irreais, lideranças tóxicas e ambientes de competição permanente. No setor de comunicação, líderes definem ritmo, prazos e cultura. Quando o erro vira exposição e o job para ontem vira regra, o risco psicossocial deixa de ser abstrato e passa a ser estrutural.
Mais do que cumprir a norma, incorporá-la é uma decisão estratégica. Empresas que alinham desempenho com sustentabilidade humana fortalecem reputação, reduzem passivos trabalhistas e constroem vantagem competitiva em um mercado que disputa talentos com tecnologia e creator economy. Ignorar essa agenda é insistir na cultura do herói exausto, cada vez menos aceita por novas gerações, investidores e clientes. A NR-1, para a comunicação, marca o fim da negligência institucionalizada e o início de uma cobrança clara: criatividade sustentável exige liderança madura.