SXSW

Qual será a nova arquitetura do trabalho?

CEO da Signal and Cipher, Ian Beacraft, defende um redesenho nas estruturas organizacionais a partir da IA

i 17 de março de 2026 - 21h40

“Nunca me senti tão atrasado como programador”. Essa foi a frase usada por Andrej Karpathy, um dos fundadores da OpenAI e ex-líder da divisão de IA e visão computacional da Tesla, para descrever como se sentia em meio ao avanço do OpenClaw, agente de IA de código aberto que consegue executar ações de forma autônoma no ambiente do próprio usuário.

arquitetura do trabalho

Ian Beacraft no SXSW 2026 (Crédito: Taís Farias)

Para o CEO da Signal and Cipher, Ian Beacraft, esse não é um sentimento individual e representa a forma como muitos profissionais, em diferentes áreas, vêm se sentindo com o avanço da inteligência artificial.

Isso acontece porque, apesar de a IA mudar as perspectivas sobre trabalho e futuro profissional, ela ainda não está mudando a maneira prática como as pessoas trabalham. Beacraft explica que, hoje, a inteligência artificial é tratada como uma ferramenta. Porém, o uso da ferramenta de maneira isolada não tornaria nenhum profissional em um nativo em inteligência artificial.

“Ferramentas apenas permitem novas formas de realizar uma tarefa. O que a IA faz é reescrever fundamentalmente as regras do sistema, e precisamos olhar para ela dessa forma. Caso contrário, seremos apenas um pouco melhores nas mesmas coisas que sempre fizemos”, aponta o executivo.

Para que isso seja possível, seria preciso repensar a engenharia do trabalho. Isso porque, até agora, todo o sistema profissional – desde a definição de cargos até as métricas de sucesso – foi desenvolvida pensando em uma execução 100% humana sem considerar, por exemplo, a presença de sistemas agênticos.

“Quando começamos a olhar para a reconstrução do sistema, tudo muda. O sistema inteiro começa a se tornar melhor e mais eficiente. As métricas que temos passam a ser compartilhadas. Começamos a enxergar o progresso, o estado e a saúde da empresa como um todo e não apenas em partes isoladas”, descreve Beacraft.

Nesse contexto, ele defende que, hoje, cada estrutura organizacional realiza dois trabalhos ao mesmo tempo. De um lado, a coordenação, que organiza os processos. Do outro, a cultura, que mantém as pessoas unidas. Ao não saber distinguir o papel de cada uma dessas funções, as companhias podem errar em onde a IA pode realmente ser relevante.

“Não é apenas usar a IA para a parte operacional. É sobre cultura e operação juntas”, aponta Beacraft, que acrescenta: “Precisamos focar no fato de que o custo da execução desmoronou, mas o custo da coordenação não”.

Essa concepção mudaria, inclusive, o ideal de trabalho. “Passamos toda a nossa carreira sendo responsáveis pela execução: produzindo os entregáveis, escrevendo os briefings, imaginando que o nosso esforço estava linearmente correlacionado ao sucesso do que estávamos produzindo. Mas, agora, com a IA tornando a execução barata, essa dinâmica mudou completamente. E, se tentarmos competir com as máquinas, já perdemos”, defende.

Operadores, designers e arquitetos

Nesse cenário, o futurista propõe uma hierarquia que substitui o “fazer o trabalho” por “projetar o trabalho”. Nela, os profissionais alternam entre três funções fundamentais: o modo operador, o modo designer e o modo arquiteto.

O modo operador representa 95% do trabalho que é feito hoje. Ele seria a execução direta do trabalho. “O critério de sucesso aqui é a precisão. Trata-se de usar bem e com eficácia as ferramentas de IA”, explica Beacraft.

Já no design o objetivo é criar fluxos de trabalho, sistemas que gerem automação e fluidez. No modo design, o sucesso é definido pela construção de processos e soluções que resolvem toda uma categoria de desafios e que trazem eficiência para as outras pessoas. “Estamos lidando com os problemas em escala, como uma classe de desafios, em vez de casos individuais. Isso envolve prompts reutilizáveis, agentes e assim por diante”, cita.

Por fim, os arquitetos projetam o sistema como um todo. Eles são responsáveis por codificar intenções, critérios e incutir a cultura organizacional em conjuntos de dados e na infraestrutura.  Beacraft resume: “Isso molda a maneira como cada pessoa e cada agente de IA interage com o sistema. Como o mundo está mudando rápido, preciso ser capaz de perceber para onde o vento sopra e ajustar a organização de acordo com isso”.