Sua marca existe para a inteligência artificial?
A tecnologia pode acelerar processos, organizar informações e influenciar decisões, mas não constrói da noite para o dia o patrimônio de uma grande marca
Quem pensa em trocar de carro, escolher um banco ou planejar as próximas férias costuma conversar com amigos, lembrar de alguma propaganda ou pesquisar no Google. Agora, há mais uma possibilidade: pedir uma recomendação à inteligência artificial.
Em poucos segundos, ela apresenta opções, compara produtos, organiza informações e até sugere o que comprar. Parece apenas mais uma facilidade da vida moderna, mas estamos diante de uma transformação importante na maneira como as pessoas descobrem e se relacionam com as marcas.
Durante décadas, as empresas disputaram espaço na televisão, no rádio, nos jornais e nas ruas. Depois, passaram a disputar cliques, buscas e atenção nas redes sociais. Agora, surge uma nova disputa: estar entre as marcas que a inteligência artificial considera relevantes para recomendar. E aqui nasce uma pergunta que deveria entrar na pauta de qualquer reunião de marketing: sua marca está preparada para ser encontrada também pelas máquinas?
Não se trata simplesmente de investir em mais uma plataforma ou aprender uma nova sigla do marketing digital. Estamos falando de reputação, consistência, informação e presença. Para os anunciantes que já planejam 2027, será preciso compreender como suas marcas aparecem nesses novos ambientes, sem abandonar os fundamentos que sempre fizeram a boa comunicação funcionar.
Afinal, uma marca não se constrói da noite para o dia. Ela é resultado de anos de comunicação, experiências, relacionamentos e, principalmente, confiança. E isso continua valendo, mesmo quando a tecnologia muda a maneira como fazemos nossas escolhas.
Essa reflexão me faz lembrar de uma história que ouvi do amigo Pedro Arlant, um dos grandes profissionais da publicidade brasileira, com quem tive o privilégio de começar minha trajetória profissional como estagiário. Hoje, diretor-geral de Atendimento da NOVA/SB, em Brasília, Pedro também dirigiu o atendimento da conta do Itaú na Africa, onde trabalhou com Alfredo Luiz dos Santos, o nosso Alfredão, então diretor de Marketing do banco, que infelizmente nos deixou neste mês de outubro.
Pedro me contou que, certa noite, depois de uma longa e importante reunião sobre uma campanha do Itaú, já passava das oito da noite quando todos começaram a se despedir. O dia havia sido intenso e, antes de sair, Pedro perguntou:
— Alfredão, agora você vai para casa descansar?
E Alfredo respondeu:
— Não, Pedro. Preciso voltar para o banco. A bolacha laranja nunca pode parar de ser lustrada.
Você pode estar se perguntando: mas o que essa história tem a ver com a inteligência artificial? Para mim, tem tudo a ver.
As marcas continuarão precisando muito dos Pedros e dos Alfredos, de pessoas que cuidem incansavelmente de suas bolachas laranjas. Afinal, é esse trabalho de anos, feito de criatividade, investimento, presença e consistência, que constrói reputação e confiança. É essa história que dá relevância a uma marca, tanto na memória das pessoas quanto nos novos ambientes de busca e recomendação da inteligência artificial.
A tecnologia pode acelerar processos, organizar informações e influenciar decisões, mas não constrói da noite para o dia o patrimônio de uma grande marca. Algoritmos podem recomendar marcas, mas são as pessoas que as tornam dignas de ser recomendadas.
Alfredão compreendia isso muito antes de qualquer algoritmo. Sua lição nos lembra que o futuro da comunicação continuará dependendo de algo que sempre fez a diferença: pessoas comprometidas em construir, proteger e renovar a confiança nas marcas.
Talvez o passado nunca tenha sido tão importante para o presente e, principalmente, para o futuro.
E que a bolacha laranja nunca deixe de ser lustrada.