Competição e generosidade: como combater a inveja no trabalho?
Autoras apontam com a colaboração pode combater o burnout e a cultura do esforço extremo
Já te fizeram acreditar que a competição é boa para a inovação? Que é algo inerente aos humanos? Que ela ajuda a motivar os profissionais no ambiente de trabalho? Foi com essas perguntas que Amy Gallo, editora da Harvard Business Review e especialista em trabalho, e Ruchika T. Malhotra, autora do livro Uncompete: Rejecting Competition To Unlock Success, abriram seu painel sobre competitividade no trabalho.

Amy Gallo e Ruchika Malhotra (Crédito: Taís Farias)
Malhotra explica que o conceito de “uncompete” ou descompetir, em tradução livre, parte da premissa de que a competição é, na verdade, uma escolha e que optar pela colaboração pode ser mais frutífero individual e coletivamente.
Ao contrário do mito e de acordo com pesquisas recentes, a competição não torna os seres humanos mais inovadores. Foi exatamente a capacidade de colaborar que permitiu a evolução como espécie. A competição também não seria um sentimento inato.
“O que somos programados para fazer, na verdade, é comparar. Portanto, a comparação social é normal. Como espécie, evoluímos visualmente para olhar para o outro e dizer: ‘Você é uma ameaça para mim ou faz parte da minha tribo?'”, aponta a autora.
A pesquisadora defende que em um contexto de policrise, como o atual, seria perigoso manter uma mentalidade de competição. “Precisamos viver em comunidade e colaborar mutuamente se quisermos superar este momento”, aponta Ruchika.
Ela explica que a competição não é um sentimento natural, mas um efeito cultural criado por um sistema de desigualdade que faz as pessoas acreditarem que precisam competir em todos os campos de suas vidas. Isso seria ainda mais sensível entre grupos minorizados.
“Algumas das experiências mais dolorosas que tive em termos de competição foram com outras mulheres do sul da Ásia, mulheres que se pareciam comigo. Isso também faz parte da cultura da competição. Nós somos ensinadas que só há espaço para uma de nós”, aponta.
Nesse sentido, optar pela não competição seria não só uma escolha como uma forma de resistência. Segundo a autora, as redes sociais também teriam responsabilidade em alimentar essa cultura da competição.
“É fundamental entender como as redes sociais foram realmente projetadas para nos manter constantemente com inveja dos outros”, defende Ruchika. Ela divide a inveja em duas categorias: a inveja maliciosa e a inveja aspiracional. A inveja maliciosa é a reação negativa ao sucesso do outro. Nela, o indivíduo foca em diminuir o sucesso alheio por não o achar merecedor.
A inveja maliciosa também leva a autossabotagem, quando o profissional se sente um fracasso comparado ao sucesso do outro. Já a inveja aspiracional é uma reação positiva ao sucesso alheio e pode ser usada como ferramenta de autodescoberta. “O que isso me diz sobre o que eu quero?”, explica a autora.
Mas, então, como driblar a inveja e a competição? O primeiro passo seria tentar ativamente cultivar a inveja aspiracional no lugar da maliciosa, reconhecendo o esforço alheio.
“Não é fácil, mas as pesquisas mostram que, se acreditamos que alguém recebeu algo ‘de mão beijada’, isso geralmente resulta em inveja maliciosa. Por outro lado, se acreditamos que a pessoa trabalhou duro ou que mereceu, é uma forma de canalizarmos essa inveja motivacional”, propõe a autora.
Ao mesmo tempo, para a competição, o antídoto estaria na generosidade radical. “Trata-se, essencialmente, da prática de como podemos chegar a um ponto em que consigamos encorajar e motivar outras pessoas a trazerem suas melhores versões para o ambiente de trabalho ou para a sociedade. Sendo generosos de uma forma em que não esperamos, necessariamente, que elas nos retribuam exatamente da mesma maneira”, aponta.

Qual será a nova arquitetura do trabalho?
Por fim, ao minimizar a competição, os profissionais não estariam só criando ambientes de trabalho mais saudáveis e produtivos, mas também cuidando da sua saúde.
“Isso faz parte da competição. Da hustle culture [mentalidade que glorifica o trabalho excessivo]. Você tem que estar online o tempo todo. Se o seu chefe está online, você tem que estar online. Você tem que responder a cada e-mail assim que ele chega. Estamos chegando ao burnout”, defende Malhotra.
