Como navegar um mundo fragmentado, em que a verdade não engaja?
Em um mundo guiado por algoritmos, a fragmentação dos fatos torna o diálogo cada vez mais difícil
A gente costumava compartilhar os mesmos fatos. Não necessariamente as mesmas opiniões, mas pelo menos um ponto de partida comum. A banda que marcou uma geração, o festival que entrou para a história, a novela que o Brasil inteiro assistiu.
Isso acabou. O ecossistema de informação que nos envolve foi construído em torno do feed personalizado, do algoritmo que aprende nossas preferências antes mesmo de a gente perceber que as tem, e do comentário que chega antes da notícia. Não foi desenhado pra nos conectar com quem pensa diferente. Foi desenhado pra nos manter confortáveis. E o resultado é uma fragmentação tão profunda que o diálogo, antes de ser difícil, ficou quase ilógico: sem fatos em comum, conversar virou uma batalha de narrativas na qual a verdade não engaja.
O dado que mais me parou no SXSW nesse primeiro dia de conferência veio da sessão “Who Owns The Truth”: adolescentes entre 14 e 17 anos são hoje os maiores consumidores de teorias conspiratórias, e mais da metade dos que ficam mais de 5 horas por dia em redes sociais está mergulhada nesse tipo de conteúdo.
Não é acidental, foi pensado pra ser assim. A cultura da recompensa instantânea (like, compartilhamento, validação) treina o cérebro a fugir do desconforto do pensamento crítico. Quando questionar cansa e concordar recompensa, a radicalização vira simplesmente o caminho mais fácil. E essa lógica não fica restrita a adolescentes. Ela contamina tudo, inclusive a forma como nós, profissionais de marketing e comunicação, tomamos decisões todos os dias.
Esse cenário nos coloca uma escolha ética. Se o algoritmo favorece polarização a ponto de você precisar de uma parte da sua audiência te odiando pra impulsionar seu alcance, o quanto não nos tornamos propagadores indiretos da bagunça?
A resposta pode não ser a mais confortável de repetir numa sala de reunião, mas é direta: consistência vale mais que viralidade, e audiência não é combustível, é gente. Regina Augusto colocou isso com precisão ontem, numa conversa sobre radicalização de discursos: somos pessoas, não perfis. Pessoas, não audiências massivas que existem pra servir ao algoritmo.
A meu ver, um caminho possível pra navegar esse contexto passa por três comportamentos que parecem contraditórias, mas se complementam: ser razoável, um pouco incendiário e, acima de tudo, otimista. Razoável significa manter guardrails, morais e técnicos, na tomada de decisão. Não porque seja o caminho seguro, mas porque é o que separa comunicação de manipulação. Incendiário significa não se contentar com talking points genéricos, questionar além da superfície e ter opiniões reais sobre temas complexos que afetam nossa indústria. E otimista porque, sem acreditar que é possível fazer diferente, a gente não encontra energia pra fazer nada.
Parece cansativo? Com certeza é. Mas a alternativa, seguir o fluxo de uma lógica que lucra com a nossa incapacidade de dialogar, tem um custo muito maior. Afinal, nós que trabalhamos com comunicação sabemos melhor do que ninguém o quanto as palavras moldam o mundo.