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O que a IA pode ensinar sem tirar o aprender

No SXSW, debate sobre IA questiona limites no aprendizado e o papel do esforço no desenvolvimento infantil

Thiago Rodrigues

Co-Founder Pace Mídia 17 de março de 2026 - 14h26

Entre tantas conversas sobre inteligência artificial no SXSW, uma me pegou de um jeito mais pessoal. Talvez porque, em certos temas, é impossível ouvir apenas como profissional. A palestra sobre IA na educação me pegou primeiro como pai, depois como alguém que trabalha em um mercado que vive de repertório, interpretação, contexto e ideias.

O que mais me marcou não foi uma promessa grandiosa sobre o futuro da aprendizagem, mas sim uma frase simples: “If we outsource the struggle, we don’t really learn.” ou seja, numa tradução livre: “Se terceirizamos o esforço, não aprendemos de verdade”. Fiquei pensando nisso por um bom tempo.

Aprender sempre teve alguma fricção. Uma criança aprende a andar tentando, caindo, insistindo, tentando de novo. Não existe atalho para essa construção. O mesmo vale para estudar, escrever, interpretar, resolver um problema, organizar pensamentos etc. Há um tipo de amadurecimento que nasce justamente da repetição, do erro, da dúvida e do tempo que uma ideia leva para fazer sentido.

É aí que mora minha inquietação de pai quando penso na IA. Não porque eu ache que a tecnologia deva ser mantida à distância, como se fosse um corpo estranho. Nem porque faça sentido sustentar uma nostalgia analógica. A questão, para mim, é mais delicada. Quando a resposta chega pronta e cedo demais, o risco não é só a criança aprender menos. É ela se acostumar a não sustentar o desconforto de pensar. E talvez esse seja um dos efeitos mais silenciosos da IA na educação: a perda de resiliência.

Na palestra, outro ponto me chamou a atenção. Quando crianças usam a própria imaginação para desenvolver um trabalho, a variedade de ideias tende a ser muito maior. Quando entram em cena respostas fortemente mediadas por modelos generativos, essas ideias começam a se agrupar, a se parecer mais entre si, a perder diferença.

Ao mesmo tempo, reduzir esse debate a uma oposição entre medo e entusiasmo seria simplificar demais o tema. Porque existe, sim, um lado promissor. E ele aparece quando a IA deixa de ocupar o lugar do aluno e passa a funcionar como um co-piloto no processo de aprendizagem.

Faz sentido imaginar professores usando IA para ajustar linguagem e complexidade dos conteúdos de acordo com cada turma que ensinam. Faz sentido também pensar em plataformas integradas ao ecossistema escolar, com supervisão e propósito pedagógico.

Talvez o melhor resumo disso esteja em um exemplo muito mais simples do que qualquer debate futurista. Recentemente, descobri que a escola dos meus filhos trabalha com mapas mentais para ajudar as crianças a organizar o que estão aprendendo. Mas faz isso no papel. É um raciocínio contemporâneo, com método atual, mas sem a ansiedade de transformar tudo em tela.

A educação vai precisar evoluir, vai precisar incorporar o que a tecnologia tem de melhor. Mas incorporar não é se render à “tendência da vez” e sim decidir onde a ferramenta melhora o aprendizado.

Esse raciocínio, aliás, não vale só para a escola. No nosso mercado, estamos diante de uma tensão parecida. A IA já virou apoio real e seria ingênuo ignorar isso. Mas também aqui existe um risco claro: formar profissionais cada vez mais rápidos na execução e cada vez menos dispostos a sustentar o trabalho de pensar. Gente que opera bem, mas aprofunda pouco. Gente que responde rápido, mas fórmula mal. Gente que, aos poucos, vira passageira do próprio raciocínio.

E, para quem trabalha com ideias, esse é um risco sério, pois um pensamento original dificilmente aparece quando todo mundo consulta as mesmas ferramentas do mesmo jeito para chegar a respostas parecidas.

A boa notícia é que ainda estamos no momento de desenhar esse uso. Não faz sentido ficar fora do jogo, mas jogar com ela não pode significar abrir mão justamente daquilo que nos forma.

No SXSW, uma palestra sobre inteligência artificial na educação me fez olhar para o tema por duas óticas ao mesmo tempo: a inquietação de pai e a preocupação de quem trabalha com ideias.