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Seja brutal

No SXSW, Jenny Wood defende que coragem também nasce de comportamentos desconfortáveis

Luis Constantino

CEO & CCO da Oliver Latin America 15 de março de 2026 - 18h36

Assisti à palestra “Wild Courage: Go After What You Want & Get It”, conduzida por sua autora, Jenny Wood.

Em formato de book reading, Jenny apresentou a ideia central do livro: coragem não é apenas bravura ou confiança. Na verdade, ela é formada por uma combinação de traços e comportamentos que muitas vezes são vistos como negativos, mas que, paradoxalmente, são exatamente os que nos fazem avançar.

Para desenvolver essa “Wild Courage”, segundo ela, precisamos abraçar características que normalmente evitamos assumir:

Estranho. Egoísta. Sem vergonha. Obcecado. Intrometido. Manipulador. Brutal. Imprudente. Mandão.

Pode soar desconfortável, mas é exatamente esse o ponto.

Entre todos esses comportamentos, um me marcou profundamente: ser brutal.

Jenny contou uma história real de quando ainda era uma alta executiva do Google.

Ela tinha um dia cheio de reuniões em Nova York. Como a agenda estava apertada, ela decidiu deixar sua filha com a sogra, que morava a cerca de duas horas de trânsito de Manhattan.

No meio do expediente, entre uma reunião e outra, chega uma mensagem da sogra:

“Por favor, me ligue agora.”

Jenny liga imediatamente.

A sogra tenta tranquilizá-la:

“Jenny, fique calma, está tudo bem. Mas aconteceu um acidente com sua filha. Ela estava brincando na cozinha, o cabelo enroscou no mixer e ela perdeu um tufo grande de cabelo. Ela está bem… só está nervosa.”

De repente, a filha pega o telefone em prantos.

“Mamãe, vem para casa. Como eu vou para a escola amanhã assim? O que eu faço? Eu quero você.”

Jenny para por um instante.

Racionaliza.

A sogra disse que está tudo bem.

A filha não está gravemente ferida.

A agenda do dia está lotada de reuniões importantes.

A viagem levaria duas horas.

Ela decide ficar.

Trabalha até o final do dia.

À noite, quando finalmente chega em casa, encontra a filha de boné, aparentemente tranquila. Jenny sente um breve alívio.

Mas o alívio dura poucos segundos.

Ela tira o boné.

E percebe que não era apenas um tufo.

A filha havia perdido todo o cabelo do topo da cabeça, restando apenas as laterais.

Jenny entra em choque.

E a pergunta surge imediatamente:

Por que eu não fui?

O que era mais importante , minha agenda ou minha filha?

Por que eu não disse não ao trabalho?

Foi nesse momento que ela entendeu o verdadeiro significado de ser brutal.

Ser brutal é ter coragem de dizer não.

Não para o trabalho.

Não para a reunião importante.

Não para o medo de decepcionar outras pessoas.

Porque, às vezes, a única forma de dizer “sim” ao que realmente importa é sendo brutal com todo o resto.

Ser brutal com as prioridades.

Brutal com as escolhas.

Brutal com a honestidade sobre o que realmente importa.

O cabelo da filha cresceu de novo.

Hoje está tudo bem.

Mas, ela nunca mais deixou de ser brutal.

Que sejamos também.