Crise climática tem espaço no SxSw?
Sim como tema geral, muito pouco sobre seus impactos na saúde e sobre como a tecnologia pode nos ajudar a enfrentar os eventos climáticos que afetam todos, mas de maneira mais dramática as populações mais vulneráveis.
Segundo uma pesquisa da Ipsos em parceria com a Global Futures Society e a Dubai Future Foundation¹, 96% dos futuristas profissionais e 80% dos cidadãos em geral acreditam que estamos caminhando para um desastre ambiental se não mudarmos hábitos rapidamente. Eu diria que os dois grupos estão certos, mas que o percentual em ambos deveria ser 100%, pois não faltam evidências científicas nem ocorrências dramáticas que se renovam a cada dia. É verdade que o tema ganhou espaço em eventos e compromissos globais, mas uma face crítica desse cenário segue clamando por mais atenção: os impactos das mudanças climáticas na saúde. Na COP 30 até tivemos avanços nessa área, mas o debate precisa ser amplificado e a busca de soluções, acelerada. Daí a pergunta do título em relação ao SXSW. Embora tenha uma trilha dedicada à questão climática (Clima e Cidades), apenas duas das 53 apresentações listadas na agenda desse bloco abordam o assunto na perspectiva da saúde.
Por que isso é urgente? Porque milhares e milhares de pessoas já estão morrendo ou adoecendo por causa das mudanças climáticas. Temperaturas extremas agravam doenças respiratórias e cardiovasculares. Doenças transmitidas por vetores se intensificam nos lugares de sempre e chegam a localidades onde não ocorriam. Inundações em razão de chuvas intensas exigem os cuidados imediatos de urgência/emergência e depois se desdobram em leptospirose, distúrbios gastrointestinais e outras doenças infecciosas, além dos impactos à saúde mental associados a perdas e estresse pós-traumático e do agravamento das enfermidades crônicas que deixam de ser atendidas por falta de acesso a unidades de saúde superlotadas e das muitas que colapsam. Isso para não falar de agravamento da insegurança alimentar e dos prejuízos nas condições sanitárias. Em todas as situações, os mais atingidos são as populações mais vulneráveis. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, entre 2030 e 2050, as mudanças climáticas causarão 250 mil mortes adicionais por ano devido a desnutrição, malária, diarreia e estresse térmico.
Enfim, temos uma situação dramática na saúde pública que não pode esperar mais. São bem-vindas as discussões e os cases da agenda do festival sobre resiliência das cidades para o enfrentamento da crise climática, focando sobretudo aspectos de estrutura urbana. Mas é fundamental direcionar um foco especial à resiliência e adaptação dos sistemas de saúde.
O lado positivo disso tudo é que o mesmo mundo que desenha esse cenário apocalíptico dos impactos das mudanças climáticas na saúde pública também nos oferece os trunfos para lidar com os desafios: dados e tecnologia para transformá-los em soluções.
Precisamos explorar, integrar e cruzar os dados que já temos e gerar novos. Dados são uma generosa fonte para criarmos algoritmos e outras soluções digitais que agregam inteligência ao conjunto de informações, permitindo direcionar ações, estratégias e políticas públicas. Para planejar respostas eficazes e proteger principalmente os grupos mais vulneráveis, precisamos entender as mudanças climáticas e como elas impactam a saúde, considerando todos os fatores envolvidos.
Tecnologia é algo essencial para nos conduzir nessa jornada de entendimento e construção de respostas. Mais uma vez, o Einstein leva esse tema à SXSW, no painel “Clima em crise, saúde em risco: tecnologia como elemento vital”, em debate junto com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e incluindo a apresentação de iniciativas concretas que mostram como usar dados para tecer soluções de resiliência em saúde. Exemplo é a plataforma MAIS (Meio Ambiente e Impacto na Saúde), que cruza dados ambientais (temperatura, poluição, umidade), de saúde (internações, doenças, óbitos) e socioeconômicos para identificar padrões e apoiar o planejamento do sistema de saúde nos mais de 5,5 mil municípios brasileiros, auxiliando gestores públicos na tomada de decisões com base em dados integrados e confiáveis, além de contribuir para ações de adaptação e mitigação.
É interessante observar que tecnologia é um tema presente em quase todas as trilhas da SXSW, com ênfase na IA (que eu chamo de Inteligência Ampliada, porque ela amplia a inteligência humana), porém não mais como uma promessa futura e, sim, como algo que já aterrissou nas mais diversas áreas de atividade, transformando rapidamente o mundo em que vivemos. Acredito que essas visões e experiências de IA e tecnologia digital que a SXSW nos trará em diferentes campos também proporcionarão novos insights para aplicações no enfrentamento dos impactos das mudanças climáticas na saúde.
Investir em infraestrutura digital e inovação em saúde é enveredar no cenário preocupante dos impactos na saúde para transformá-lo. É conectar dados e tecnologia com a vida das pessoas e construir sistemas resilientes. É uma estratégia crucial de adaptação climática – um meio de proteger prioritariamente as populações mais vulneráveis e estender essa proteção a todos os seres humanos, já que a crise climática não limita seus impactos aos requisitos de vulnerabilidade.