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Da estatística ao estado de espírito: a redescoberta do público

Dados humanizam a publicidade o contexto e o estado de espírito importam mais que a demografia tradicional

Leo Khede

Diretor sênior de publicidade da Netflix para a América Latina 17 de março de 2026 - 14h16

A publicidade sempre se orgulhou de sua capacidade de entender pessoas. Grandes sucessos e campanhas nasceram de intuições profundas sobre desejos, medos, aspirações, aquela centelha de compreensão humana que transforma um filme ou uma mensagem comercial em conversa relevante, em parte da cultura.

Mas havia uma contradição silenciosa nesse processo. Para entregar suas mensagens em escala, o mercado precisava organizar pessoas em categorias. Homem, 25 a 40 anos, classe AB, região sudeste. Mulher, 30 a 45, classe B, interessada em beleza. Categorias úteis, operacionais, mas que reduziam a complexidade humana a alguns poucos marcadores demográficos.

Quanto menos tecnologia existia para entender o público, menos complexidade humana enxergávamos. O retrato de uma pessoa cabia em três linhas de planilha. A ironia é que a tecnologia, às vezes acusada de desumanizar relações, veio para nos devolver a complexidade que havia sido perdida.

Não se trata de julgar o passado com os olhos de hoje. O modelo demográfico fez sentido durante décadas porque era o possível. Com poucos canais, pouca fragmentação e pouca capacidade de processamento, segmentar por idade e classe social era avançado – como se a faixa de renda dissesse algo relevante sobre seus medos noturnos, suas alegrias secretas, o que as fazia rir ou chorar diante de uma tela.

Funcionava. Funcionou.

Hoje, os dados não informam apenas idade e localização. Informam padrões de comportamento, estados de espírito, momentos emocionais. Uma maratona noturna de comédia romântica pode revelar uma busca por conforto. A pausa repetida numa cena de drama pode indicar identificação profunda com aquele diálogo. O horário em que alguém consome determinado gênero diz algo sobre seu ritmo de vida, suas rotinas, suas necessidades.

O dado, interpretado com sensibilidade, transforma-se em perguntas mais ricas. Não apenas “quem é essa pessoa”, mas “como ela está se sentindo agora?”. Não apenas “onde alcançá-la”, mas “que tipo de história ela quer ouvir neste momento?”.

É justamente nesse ponto que a tecnologia sai do papel de observadora e se torna uma ponte ativa. Compreender o estado de espírito de alguém é apenas o primeiro passo;o seguinte é permitir que as marcas e criadores interajam com essa camada adicional de humanidade de forma relevante e não intrusiva.

Talvez a mudança mais profunda seja essa: a tecnologia nos permitiu incorporar variáveis que antes eram território exclusivo da intuição.

A evolução da TV Conectada (CTV) é um exemplo perfeito desse novo ecossistema. A tela grande da sala, antes um monólogo do anunciante para a massa, agora é um ambiente bidirecional. Com essa base de compreensão mais profunda, as marcas podem ter acesso a ferramentas que transformam uma mensagem estática em um convite ao diálogo – “Cansado? Que tal uma comédia?” ou “Inspirado? Continue essa história”.

Saber que alguém está buscando escapismo numa noite de quarta-feira é diferente de saber que alguém tem 35 anos e mora em determinada região. A idade diz pouco sobre o que aquela pessoa precisa naquele instante. O contexto diz quase tudo.

Uma história pode ser contada em 6 segundos ou em 60 minutos, dependendo do contexto. Pode começar num ambiente e continuar em outro. Pode ser linear ou interativa, direta ou indireta, explícita ou sutil. A tecnologia permite que a narrativa se molde ao momento, não o contrário. É sobre dar a quem cria instrumentos para que cada encontro entre mensagem e pessoa seja tão único quanto aquele instante.

Os dados e a tecnologia podem também nos aproximar da nossa humanidade como nunca foi possível antes. Não apesar dos dados, mas por causa deles. Agora, quanto mais dados temos, mais humana se torna nossa visão. Mais nuances enxergamos. Mais complexidade conseguimos absorver.

Discussões como essa, sobre o futuro da conexão entre marcas, dados e narrativas, são justamente o que torna eventos como o SXSW um termômetro tão importante para o mercado e um espaço para a evolução de conversas que vão verdadeiramente nos levar adiante. É o momento perfeito para migrarmos de um debate puramente teórico sobre o poder dos dados para a demonstração prática de como eles podem orquestrar experiências integradas e humanizadas em escala.