E se as soft skills forem as novas hard skills?
O que o SXSW 2026 está dizendo sobre o futuro da capacitação profissional e por que as soft skills são parte central dessa conversa
Todo profissional quer dominar a inteligência artificial. E deveria! Em menos de três anos, a IA
generativa deixou de ser a curiosidade tecnológica da vez para se transformar na ferramenta de
trabalho mais poderosa da nossa geração. Quem ainda não começou a explorá-la de forma
prática, seja para criar, analisar, automatizar ou tomar decisões, já está ficando para trás. E a
chegada dos sistemas agênticos vai acelerar ainda mais essa “corrida” por capacitação. Mas isso
é só parte do percurso. O SXSW deste ano está deixando evidente que dominar a tecnologia é o
ponto de partida, não a linha de chegada. Austin nunca falou tanto sobre habilidades humanas
como em 2026, talvez porque essas habilidades deixaram de ser complementares e se
tornaram centrais.
Se antes o debate era sobre o que a IA consegue fazer, agora estamos discutindo o que ela não
é capaz de reproduzir. É aí que entra a divisão que vem guiando o mercado de trabalho por
décadas: hard skills vs soft skills. Mas e se essa separação não fizer mais sentido?
A palestra da futurista Amy Webb, a mais aguardada do festival, está sendo notícia por enterrar
o próprio relatório de tendências que a tornou famosa e substituí-lo por um novo modelo
chamado Convergence Outlook, já que tendências isoladas, segundo ela, não dão mais conta
de explicar o mundo, e o que importa agora são as convergências. E uma das principais é
justamente entre a tecnologia e nós, as pessoas. Em um mundo onde a IA avança
exponencialmente, a gestão e a regulação emocional, por exemplo, tornaram-se habilidades
vitais para qualquer profissional. Liderar, negociar, colaborar e tomar decisões sob pressão
exigem leituras sutis e muitas vezes ambíguas. E é justamente essa capacidade de ouvir (e
entender) o que não foi dito que nos conecta a outros humanos de forma genuína. Essas
habilidades deixam, então, de ser “soft” e passam a ser estruturantes.
Além da Webb, outros especialistas em Austin também colocaram o dedo na ferida, como Rana
el Kaliouby, referência global em IA emocional: nas palavras dela, essa tecnologia evoluiu muito
em QI, o quociente de inteligência, mas segue analfabeta em QE, o quociente emocional. E
quem tem o monopólio da inteligência emocional? Nós, os seres humanos. Além disso, 93% da
nossa comunicação no dia a dia é não verbal: tom de voz, expressão, postura. A IA não vê nada
disso. E é exatamente aí, no que a máquina não alcança, que mora o nosso maior diferencial.
Num mundo onde a IA fabrica conteúdo em série, originalidade virou escassez. E escassez, todo
mundo sabe, tem preço.
É por isso que talentos que entregam aquilo que a máquina não é capaz de fazer estão sendo
cada vez mais valorizados. E isso impacta completamente a dinâmica do mercado de trabalho.
Se a IA é capaz de realizar tarefas mecânicas, preencher planilhas e gerar relatórios em
segundos, a liderança e o RH precisam ir atrás de outras habilidades. O critério de seleção
muda: não é mais sobre o que cada candidato sabe fazer, mas como ele pensa, como lida com
incertezas e como influencia pessoas ao redor. As soft skills nunca foram tão necessárias – e
estratégicas – como agora.
A boa notícia: a convergência apontada por Amy Webb não é teoria de palco; ela já aparece no
comportamento real dos brasileiros. Ao mesmo tempo em que buscam se capacitar em
inteligência artificial e novas tecnologias, esses profissionais também estão investindo em
habilidades como liderança, comunicação e pensamento crítico. Dados internos da Unico Skill
mostram que dois dos três tipos de cursos mais buscados por trabalhadores de empresas que
possuem benefício educação ilimitado são justamente de tecnologia e soft skills. Cada um
representa 19% de todas as matrículas feitas no ano passado. Não é uma escolha entre um
caminho e outro. É a consciência de que os dois precisam andar juntos
A pergunta que fica é: as empresas estão acompanhando essa consciência dos próprios
profissionais? Investir em capacitação técnica é necessário, claro, mas não o suficiente.
Organizações que querem reter os melhores talentos precisam criar ambientes em que as
habilidades humanas são tão valorizadas quanto o domínio de ferramentas. Isso passa por
cultura, liderança e estratégias claras de desenvolvimento profissional.
Com tudo que tenho visto e ouvido em Austin, estou certa de que a IA não é um convite para
sermos mais técnicos. É o contrário! É um convite para sermos mais humanos do que nunca.
Aprender tecnologia é essencial, mas desenvolver o que só nós temos é o que vai definir quem
lidera essa transformação. E se existe um país com criatividade, diversidade e jogo de cintura
para ocupar esse espaço, é o Brasil. A conversa global está aberta. E a gente tem muito a
contribuir