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Em meio ao hype da tecnologia, surgiu um alerta para as marcas

O futuro do trabalho exige o "mattering": pessoas precisam sentir que têm valor real para gerar engajamento

Renata Persona

Head Latam de Marketing da TotalPass 13 de março de 2026 - 16h09

No primeiro dia de SXSW, uma reflexão sobre mattering reposicionou um debate central para o futuro do trabalho: mais do que reconhecimento, pessoas querem sentir que têm valor e relevância real dentro das organizações.

Em um evento como o SXSW, é natural esperar que as conversas mais marcantes sejam sobre tecnologia, inteligência artificial ou as próximas grandes tendências de comportamento. Mas uma das reflexões mais poderosas que acompanhei no primeiro dia passou por um caminho mais essencial: a necessidade humana de sentir que importa.

Na palestra de Jennifer Breheny Wallace, o conceito de mattering apareceu de forma tão simples quanto profunda. Trata-se de sentir-se valorizado e, ao mesmo tempo, perceber que se gera valor. Pode parecer subjetivo, mas, no ambiente de trabalho, esse sentimento tem efeitos bastante concretos sobre engajamento, conexão e permanência.

Falamos muito sobre saúde mental nas empresas, e isso é positivo. Mas essa conversa só ganha profundidade de verdade quando deixa de ser apenas uma agenda de cuidado e passa a ser também uma agenda de vínculo. Porque o bem-estar não se sustenta apenas com discurso, benefício ou campanha interna. Ele se sustenta quando as pessoas percebem, na prática, que sua presença faz diferença.

Esse talvez tenha sido o ponto mais provocador da palestra. Mais do que criar ambientes produtivos, empresas precisam criar ambientes em que as pessoas se sintam vistas, consideradas e necessárias. Em que líderes não apenas cobrem entregas, mas sejam capazes de demonstrar atenção, reconhecimento e investimento real no outro. Não por acaso, um dado citado na apresentação, da Gallup, mostra que 70% dos empregados se sentem desengajados por não se sentirem apreciados. É um número forte porque traduz, em termos objetivos, o custo de culturas em que o reconhecimento não vira experiência cotidiana.

Uma das frases que mais me marcou foi a de que “mattering is not a slogan, it is a genuine feeling”. E isso diz muito também sobre marketing e comunicação. Marcas são construídas por narrativas, mas só se sustentam quando essas narrativas encontram verdade na experiência real das pessoas.

Em um momento em que tantas empresas disputam relevância cultural e afinidade com seus públicos, talvez a pergunta mais importante comece dentro de casa: como as pessoas que constroem essa marca se sentem ao fazer parte dela?

Quando o trabalho vira apenas meta, produtividade e performance, a conexão enfraquece. Quando existe senso de valor, pertencimento e significado, a relação muda de patamar. E isso não é detalhe. É estratégia. Para quem trabalha com marketing e comunicação, esse éum ponto especialmente relevante: não existe marca forte sem coerência entre o que a empresa comunica e o que as pessoas vivem dentro dela.

No fim, saí dessa palestra com uma convicção simples: o futuro do trabalho não será definido apenas por quem adota melhor a tecnologia, mas por quem entende melhor as pessoas. Porque, antes de pensar em inovação, performance ou reputação, talvez a pergunta mais importante para qualquer marca seja outra: se comunicação é, no fim do dia, construção de vínculo, como uma empresa pode querer ser relevante para fora sem fazer as pessoas de dentro sentirem que realmente importam?