Conexão Austin

Estamos usando IA por inteligência ou por medo?

A IA gera ansiedade e apaga cargos de entrada, tornando o julgamento humano a nova prioridade

Matheus Fonseca

Cofundador da Leapy 17 de março de 2026 - 15h10

Passei cinco dias em Austin ouvindo algumas das mentes mais influentes do mundo falarem sobre trabalho, juventude, tecnologia e conexão humana. Saí com mais perguntas do que respostas, o que talvez seja a entrega mais honesta que o SXSW 2026 tinha a oferecer.

O evento deste ano prometia colocar a questão humana no centro. E cumpriu, embora de um jeito que eu não esperava. O tema que atravessou praticamente todas as sessões que acompanhei não foi o poder da inteligência artificial, mas a ansiedade que ela está produzindo, combinada com a ausência quase completa de um mapa para lidar com o caos que estamos construindo.

A armadilha do medo que paralisa

O ETS (Educational Testing Service) apresentou dados de uma pesquisa global chamada Human Progress Report que me surpreenderam. Não pelo que revelam sobre IA, mas pelo que dizem sobre as pessoas.

De acordo com o levantamento, 60% dos trabalhadores ao redor do mundo dizem sentir pressão para adotar ferramentas de inteligência artificial antes de estarem prontos. O mesmo estudo mostra que 69% afirmam não ter ideia de como serão os empregos do futuro próximo, enquanto 65% relatam usar IA não porque veem valor genuíno nisso, mas por medo de se tornarem irrelevantes se não a utilizarem.

É nesse ponto que a situação se torna perigosa. O medo não está gerando aprendizado, está gerando paralisia. Em vez de experimentar, errar e ajustar, muitas pessoas passaram a usar ferramentas que mal entendem para produzir conteúdos que mal revisam.

O resultado é uma combinação preocupante: velocidade sem direção e produção sem julgamento.

E o julgamento — a capacidade humana de avaliar o que a IA produz e decidir quando usá-la e para quê — apareceu repetidamente nas discussões como a habilidade mais crítica do nosso tempo. Não se trata do prompt perfeito ou do domínio de dez ferramentas diferentes. Trata-se da capacidade de julgar.

O que a IA pode estar erodindo sem avisar

Em paralelo, diversas sessões sobre saúde social, conexão humana e bem-estar no trabalho desenharam um quadro igualmente inquietante.

O pano de fundo é uma crise de conexão que já vinha se aprofundando. Nos Estados Unidos, 79% da Geração Z relatam sentir solidão, segundo o relatório Loneliness in America, conduzido pela Evernorth.

Ao mesmo tempo, ferramentas digitais começam a ocupar parte desse espaço social. Mais de 40% da Geração Z dizem já ter recorrido a sistemas de inteligência artificial para conversar ou pedir conselhos, de acordo com levantamento global da Snap em parceria com a National Research Group sobre bem-estar digital.

Em outra evidência da mesma tendência, dados do Google Trends mostram que buscas por “how to make friends” atingiram níveis recordes nos últimos anos.

Numa das sessões mais densas da semana, o painel sobre as relações de trabalho da Geração Z tocou em uma ferida importante: ao delegar à IA perguntas que antes fazíamos a colegas, como “esse e-mail está bom?” ou “como você abordaria isso?”, estamos perdendo pequenos momentos de interação que ajudam a construir confiança.

E confiança, como foi dito com precisão durante o painel, não se resume à consistência ou à competência. Ela nasce da sensação de que a outra pessoa se importa com você. Esse é um tipo de vínculo que a inteligência artificial ainda não consegue reproduzir de forma real.

Jennifer Wallace, autora do livro Mattering, trouxe talvez a provocação mais incômoda da semana. Se as previsões de alguns líderes de tecnologia se confirmarem, humanos poderão deixar de ser necessários para a maioria das tarefas.

A pergunta que surge então é inevitável: o que acontece com a saúde mental de uma sociedade em que as pessoas sentem que não importam?

Wallace mencionou duas palavras que aparecem com frequência em relatos de sofrimento psíquico: “useless” e “worthless” — inútil e sem valor. Foi um daqueles momentos em que a sala inteira ficou em silêncio.

O problema que vem depois: uma pirâmide sem base

Outra sessão relevante discutiu o chamado Big Blur, uma proposta de redesenhar a transição entre ensino médio, universidade e mercado de trabalho. O debate tocou em um ponto que me preocupa especialmente quando penso no Brasil.

A inteligência artificial está eliminando justamente os empregos de entrada: posições operacionais, repetitivas e de menor complexidade que historicamente funcionaram como porta de entrada para jovens no mercado de trabalho.

São cargos em que se aprende fazendo, em que erros têm baixo custo e em que se constrói a base que sustenta uma carreira.

Se esses cargos desaparecem, ou se tornam muito mais escassos, surge uma pergunta inevitável: o que acontecerá em cinco ou dez anos, quando as organizações precisarem de profissionais de nível intermediário? Quem terá feito esse percurso?

Estamos criando um vazio na base da pirâmide profissional que talvez só fique evidente quando já for tarde demais para corrigi-lo.

O filtro brasileiro e a pergunta que ficou sem resposta

Saio do SXSW com a sensação de que o debate global está identificando os sintomas corretos. A ansiedade em torno da inteligência artificial é real. A erosão de habilidades humanas é real. Os riscos para jovens talentos são reais. E a crise de conexão entre pessoas também é real.

Mas, quando aplico o filtro brasileiro, a escala do problema muda.

No Brasil, o desemprego jovem já é estruturalmente alto. Nosso ecossistema corporativo ainda está aprendendo a estruturar bons programas de entrada, enquanto cresce a pressão para automatizar justamente as funções que esses programas tradicionalmente treinavam.

Soma-se a isso a desigualdade digital: muitos jovens estão sendo pressionados a usar inteligência artificial sem ter recebido formação suficiente para entender o que estão fazendo.

A grande pergunta que o SXSW levantou, mas não respondeu, é a seguinte: como liderar organizações e formar jovens em um momento em que ninguém sabe exatamente qual é o caminho?

Como preservar a conexão humana quando as ferramentas digitais nos afastam? Como manter o desenvolvimento das pessoas quando a eficiência passou a ser o principal critério de valor?

Não tenho a resposta.

Mas deixo Austin mais convencido de que essa é a pergunta central da nossa geração de líderes. E de que o Brasil, com toda a sua complexidade, provavelmente precisará de respostas que não cabem em um case de Silicon Valley.