GenZ não rejeita trabalho, mas também não tem escolha
A GenZ troca o diploma por carreiras técnicas e tutoriais, buscando retorno financeiro rápido e prático
No South by Southwest (SXSW), a sessão From TikTok to Toolbelt: Preparing Gen Z for Work – que reuniu reuniu Victor Jones, Doug Donovan, Greg Toppo e Amanda Kocon – discutiu discutiu como a GenZ está redefinindo o caminho para o trabalho, questionando o modelo tradicional, faculdade seguida de carreira corporativa. A narrativa foi tratada como uma nova “big trend”, ainda que repita diagnósticos que já circulam há algum tempo nos debates sobre a geração.
Nesse processo, plataformas como YouTube e TikTok assumiram um papel central. Para muitos jovens, aprender algo novo precisa começar com um tutorial no feed: desde maquiagem e edição de vídeo até mecânica, eletrônica ou marcenaria. O que antes dependia de cursos formais ou orientação escolar agora pode começar com uma busca rápida e uma comunidade de criadores ensinando passo a passo. A narrativa de sucesso profissional não está mudando para a GenZ, ela mudou com os millennials, frustrados por não ascenderem financeiramente, mesmo após a promessa de emprego após graduação concluída. A antecipação dos entrantes no mercado de trabalho, vêm também da participação ativa dos jovens na contribuição da renda familiar.
Esse comportamento só chancela um momento de incerteza sobre o futuro. Nesse contexto, experimentar habilidades e caminhos de carreira através de conteúdos digitais funciona como uma espécie de exploração vocacional distribuída.
Ao mesmo tempo, a palestra reforça que muitos jovens estão tomando decisões profissionais cada vez mais pragmáticas e tangíveis. As profissões intelectuais acabam precisando abrir espaço para a origem: os serviços manuais. O cálculo não é apenas sobre vocação, mas também sobre retorno e necessidade, o que chancela a crescente demanda por certificações técnicas e profissões que facilitam começar a ganhar dinheiro mais cedo.
Plataformas sociais estão se tornando a maior feira de profissões da nova geração
Impulsionados por conteúdos online (TikTok, YouTube) e pela busca por retorno financeiro mais rápido, muitos jovens estão explorando carreiras técnicas e manuais (mecânica, construção, elétrica), como ferramenta de diferenciação em meio a tantas outras pessoas da mesma idade que também não possuem experiência, e não a conseguem justamente por não tê-la.
O debate destacou a necessidade de uma educação mais prática, exploratória e conectada ao mercado, além de integrar experiências de trabalho reais ainda durante a escola. Nada que já não saibamos no Brasil, a questão é o quanto ainda estamos atrás, se comparados ao Norte Global, especialmente quando se trata de ensino prático na educação pública.
A partir dessas discussões, algumas reflexões ficam evidentes quando pensamos no futuro do trabalho para a GenZ:
Decisões de carreira e ROI
Muitos jovens preferem caminhos que permitam ganhar dinheiro mais cedo, em vez de esperar anos após um diploma universitário. Isso é uma realidade global. No entanto, temos grande parte da juventude brasileira iniciando carreira naquilo que paga, independente do quanto ganham ou do que fazem, muitas vezes, como estratégia de sobrevivência. O dado ainda diz muito sobre isso: o desemprego entre jovens no Brasil atingiu patamares historicamente baixos no início de 2026, com a taxa para jovens de 18 a 24 anos situando-se em cerca de 11,4% no final de 2025/início de 2026.
Carreira tradicional em xeque
Nem todos querem ser médicos, advogados ou executivos, muitos jovens não querem trabalhos de escritório. E isso não é novidade: é fenômeno intergeracional e que acometeu inclusive os millennials e a geração X, popularmente conhecidos como geração coca-cola ou geração que abandonou empregos para viver de sonhos.
A “nova escola prática”
Não dá para falar que é tendência ou novidade jovens aprenderem habilidades práticas de maneira online, através das redes sociais, de consertar objetos a fazer maquiagem ou programação de forma autodidata. O ponto de virada aqui é como o ensino e processo de aprendizagem precisam se moldar em cima da creator economy, não contra ela.
“YouTube University” virou referência cultural
A cultura de aprender fazendo, via tutoriais, está moldando o interesse por profissões técnicas. Isso iniciou junto do YouTube em 2006 e agora oficialmente vira comportamento, não sendo mais algo esporádico feito pela GenZ, mas consequentemente realidade para as próximas.
Exploração de carreira mais cedo
Exploração profissional deveria começar no ensino fundamental ou início do ensino médio, antes que os estudantes escolham um caminho. A provocação é como isso ainda é distante se pensarmos na falta de ensino prático, transferência de conhecimento e mentoria das demais gerações com a juventude.
Experiência real ainda na escola
Sempre foi essencial. Mas agora, com AI eliminando muitos empregos de entrada, estudantes precisam construir experiência profissional ainda enquanto estudam e isso não vai acontecer se a transferência de conhecimento e mentoria das demais gerações com os novos profissionais não acontecer.
Como implicação, o debate aponta para a necessidade de atualizar a forma como pensamos orientação profissional e formação para o trabalho. Isso passa por reconhecer o papel das plataformas digitais na descoberta de habilidades e interesses, ampliar o contato dos jovens com possibilidades profissionais desde cedo e fortalecer modelos educacionais que combinem formação acadêmica com experiências concretas de aprendizagem. No fundo, a provocação que fica é simples: GenZ não rejeita o trabalho, rejeita caminhos lentos e pouco claros para chegar nele.