Hype do Brasil não começou agora
Música, cultura e turismo nos põem no centro do mundo, graças ao fortalecimento das relações internacionais
A gente está ouvindo o tempo todo que o “Brasil está na moda”, “Todo mundo quer ser brasileiro agora”. De acordo com a CNN a hashtag “#Brazil” soma mais 7,3 milhões de conteúdos, em 2025 nosso país recebeu 9,3 milhões de turistas internacionais. Está provado: sim, o hype é real. Mas como isso começou? O que, além das hashtags, construiu a nossa imagem no mundo?
É um tema sensível, eu sei, poderíamos falar desde como tratamos nosso calor, praia e malandragem, mas tem um tópico que gostaria de destacar: nossa forma de se relacionar com outros países. Lembro de, em 2029, ver a capa do The Economist com a matéria intitulada “Brazil takes off” em um momento de pleno sucesso econômico, redução das desigualdades sociais e estabilidade.
Parece até bobo, uma matéria em jornal internacional, mas analise a imagem comigo: o Cristo Redentor, símbolo máximo do Rio de Janeiro e do Brasil, rompendo as nuvens e decolando como um foguete. Rompemos a gravidade, estamos voando, em plena ascensão. Não estamos falando apenas de estereótipos tropicais. Essa capa foi, quer queira ou não, uma validação internacional.
E como chegamos até aí? Desde o começo do século XX, o Brasil tem um trabalho diplomático seríssimo que nos posicionou como um país pacifista e focado em preservar seus patrimônios. Longe das guerras, sentando na mesa com Deus, diabo, anjos e demônios, o desafio que escolhemos foi a mediação. O último conflito armado que nos envolvemos foi em 1870 com o Paraguai. São 150 anos focados em falar da Amazônia, da Amazônia Azul, da nossa cultura no geral, fomos passo a passo promovendo uma inserção internacional benigna.
Nosso poder pacifista é tão real que em plena conferência da ONU em 2003, ao invés de estabelecer os conflitos de forma bélica, nossa estratégia foi compartilhar a forma de ver e viver. Gil cantando Toda Menina Baiana com o ex-secretário geral da ONU e Nobel da Paz, Kofi Annan, deixa uma mensagem de que imagem e que relação nós construímos com diferentes nações.
Nosso soft power é muito mais complexo do que a gente imagina. Começou com persuasão e caminhou para um país formador de agenda que coopera com diferentes parceiros. E porque estou falando isso nos primeiros dias do SXSW em Austin? Não há melhor cartão de visita do que dizer: I’m from Brazil. O olho cresce em espanto junto com um: Oh that ‘s so nice! No dia de pegar o badge a atendente que fez meu credenciamento conhecia Salvador, falou que foi há muitos anos e que é uma cidade incrível. Pode até ter certo exotismo, mas em sua maioria foi carinho e uma sensação de: quero conhecer seu país também.
E não se engane: isso é uma estratégia. Nós vendemos o destino, Salvador está como a 4° cidade mais procurada do país. Tem outdoors em diferentes aeroportos em diferentes línguas, existem acordos para criarmos linhas aéreas mais baratas e muito mais. Isso é um posicionamento. A gente assistia tanto dorama como hoje? Conhecia bandas Kpop? Isso é soft power sul-coreano nos influenciando, lembrando que a relação Brasil – Coreia do Sul segue firme e em 2026 foi assinado mais um acordo de comércio e integração produtiva entre as duas nações. Entende? Nada está acontecendo de forma gratuita e totalmente fluída.
As trends, os voos, os shows, Cate Blanchett falando que ama Clarice Lispector, o BookTok descobrindo como Memórias Póstumas de Brás Cubas é um primor, é multifatorial, sem dúvida, e só foi possível por anos de diálogo internacional.
O Brasil está no Hype sim e isso é fruto de um trabalho longo, complexo, diplomático e midiático.