O ovo e a galinha
A inovação trava quando a tecnologia muda, mas a cultura e as regras não acompanham
Há três anos, ao menos, ouço a discussão aqui no SXSW sobre IA:
Pessoas, empresas ou regulações: o que realmente inicia uma transformação?
Esse dilema aparece tanto na transformação das empresas com inteligência artificial quanto no desenvolvimento de novas terapias médicas, como medicamentos psicodélicos. Em ambos os casos, existe um ciclo de dependência entre comportamento humano, estrutura organizacional e regras institucionais.
No painel “Psicodélicos: a mudança de paradigma do futuro da saúde mental” mediado por Andrey Ostrovsk, Former Chief Medical Officer da US Medicaid Program. A palavra FDA, que é o órgão regulador dos Estados Unidos, foi a mais citada na palestra.
No debate, pesquisadores e investidores frequentemente apontam um impasse.
Muitos investimentos dependem de aprovação regulatória, especialmente da FDA, para que tratamentos sejam amplamente adotados. Por outro lado, a própria aprovação depende de estudos clínicos robustos, que normalmente exigem financiamento privado e pesquisa de longo prazo.
Em outras palavras, sem aprovação, menos investimento. Sem investimento, menos estudos. Sem estudos, sem confiança. Sem confiança, sem aprovação. E o ciclo continua o mesmo há anos.
Sabemos que o assunto é mais complexo que isso, há muita discussão sobre o lobby da indústria farmacêutica que freia o avanço desse tipo de medicação.
Mas, no final, o que fica é o ciclo vicioso.
Esse ciclo também aparece na transformação organizacional impulsionada por IA.
Na palestra “How to Design a Company That AI Can’t Outpace”, apresentada Ian Beacraft, um dos principais argumentos foi que o problema da adoção de IA não é a tecnologia, mas o design das empresas.
Segundo Beacraft:
“A maioria das empresas tenta aplicar novas tecnologias em estruturas organizacionais projetadas para outra era.”
Ou seja, empresas investem em ferramentas de IA, mas mantêm processos, hierarquias e culturas criadas antes dessa tecnologia existir. O resultado é que muitas iniciativas de transformação geram apenas ganhos incrementais, mas não movem o ponteiro.
Em um slide ele descreve essa sensação:
“Tudo está mudando, mas nada ainda realmente mudou”
E vemos esse sentimento em muitas empresas.
O dilema sempre está presente nas discussões: a cultura precisa mudar antes da tecnologia ou a tecnologia cria uma nova cultura?
Ian sugere que ambas as forças se influenciam. Ferramentas podem abrir novas possibilidades, mas sem mudanças culturais e organizacionais profundas, seu impacto permanece limitado.
Até mesmo porque a IA não é uma ferramenta, como ele diz:
“Ferramentas nos permitem fazer tarefas, IA reescreve as regras do sistema”
O sistema de transformação
Talvez a pergunta “o que vem primeiro?” seja menos útil do que parece.
Transformações profundas raramente acontecem em sequência. Elas surgem quando essas dimensões evoluem juntas: pessoas mudando seus comportamentos, organizações mudando sua cultura e regulações se ajustando às novas realidades.
Quando um desses elementos fica parado, a inovação tende a travar e o culpado é o ovo ou a galinha.