SXSW

SXSW 2026: olhando além dos algoritmos

O que esperar da próxima edição e os sinais que já apontam para criatividade, cultura e intenção como ativos estratégicos

Dilma Campos

Conselheira da AMPRO e CEO & Partner da Nossa Praia 11 de março de 2026 - 17h48

O South by Southwest (SXSW) sempre foi sobre o futuro. Mas, às vésperas da edição de 2026, os sinais indicam que ele começa falando sobre o presente.

Com o Convention Center em transformação, o festival já não terá um único epicentro físico e simbólico. A experiência se espalha definitivamente por Austin e essa mudança não é apenas logística, é conceitual. A descentralização do evento espelha o mundo que habitamos: menos concentrado.

A experiência tende a se tornar mais navegável e menos hierárquica. Em vez de uma “sala principal”, múltiplos polos criativos pulsando simultaneamente. A inovação, hoje, é fluida e exige repertório – e disposição para atravessar fronteiras físicas e mentais.

Mais do que os keynotes que virão, o que deve consolidar o festival como bússola são as interseções: encontros improváveis, conversas que desmontam certezas, conexões que nascem no deslocamento. Se o futuro é descentralizado, ele também é relacional.

O humano como direcionador da tecnologia

Entre as tendências que já ganham corpo, uma parece inevitável: o protagonismo humano.

Depois de anos discutindo o que a inteligência artificial é capaz de fazer, a próxima etapa do debate aponta para outra pergunta: como queremos direcioná-la? O Brasil está entre os maiores usuários de IA no mundo, com alta velocidade de adoção. O desafio agora não é técnico, mas crítico: evitar a terceirização do pensamento.

A força deve estar na inteligência artificial humanocêntrica: menos substituição, mais ampliação de capacidades. Não apenas automação, mas “aumentação” – liberar o operacional para expandir análise, criatividade e tomada de decisão. Em um ambiente cada vez mais automatizado, o diferencial competitivo tende a ser aquilo que permanece exclusivamente humano: empatia, imaginação e propósito.

Mattering e seu diálogo com marcas e creators

Outro eixo que tende a ganhar força é o da saúde mental, juventude e pertencimento. O conceito de mattering – a necessidade de se sentir importante para alguém – dialoga diretamente com marcas e criadores. A creator economy amadurece e aponta para um possível “vibe shift”: menos audiência massiva, mais construção de comunidade.

Em um cenário saturado de telas, o crescimento contínuo do áudio e dos podcasts no Brasil reforça essa direção. O debate deixa de ser técnico e passa a ser estratégico: como usar tecnologia, inclusive IA, para fortalecer vínculos sem comprometer autenticidade? A lógica não é mais alcance, mas sim conexão.

Na interseção de tudo isso está a estratégia cultural das marcas. A geração Z não quer apenas consumir narrativas; quer habitá-las. Experiências imersivas e cocriação deixam de ser tendência e se consolidam como fronteira de branding. Não basta patrocinar, é preciso pertencer.

Há ainda um movimento simbólico que deve se intensificar: a valorização global da Brazilian-ness. Em um mundo cansado da padronização, autenticidade e diversidade ganham centralidade estratégica. Iniciativas como a SP House em Austin sinalizam que o Brasil não está apenas acompanhando tendências – está pronto para influenciar agendas, inclusive no campo dos negócios regenerativos.

Às vésperas do South by Southwest 2026, o que se desenha é menos deslumbramento tecnológico e mais intenção. Menos centralização, mais ecossistema. Menos hype, mais impacto.

Se essas projeções se confirmarem, o maior insight não virá de um palco específico, mas da lógica que conecta todos eles: o futuro não tem mais um único centro. Ele é construído nas interseções, por quem souber alinhar tecnologia, cultura e humanidade com direção clara.