EMPREENDEDORISMO

Como empreendedoras brasileiras estão ganhando o mundo

Empresárias da comunicação relatam suas experiências e aprendizados ao internacionalizar seus negócios

i 11 de setembro de 2026 - 10h30

A internacionalização acontece de diferentes formas para as empreendedoras. Algumas começam após anos de consolidação no mercado nacional. Outras já iniciam as operações com uma visão abrangente para diferentes territórios. Segundo dados da Fundação Dom Cabral da pesquisa “Trajetórias FDC de Internacionalização das Empresas Brasileiras” de 2023, os principais modos de internacionalização são: exportação (85,7%), subsidiária comercial (19,6%), subsidiária produtiva (13,9%), presença virtual (11,7%) e parceria estratégica sem investimento direto no exterior (11,4%).

Ainda de acordo com o estudo, em 2023, 68,9% das empresas brasileiras pretendiam expandir seus negócios para outros mercados internacionais no pequeno prazo. Entre os principais países-alvo para nova expansão estão EUA, Chile, Portugal, México e Emirados Árabes Unidos. Das empresas que se aventuram em terras estrangeiras, 13,5% são grandes, 50,4% médias, 12,8% pequenas e 12,8%, micro. Nessas companhias, a liderança feminina chega a 15,3%, superando até a média das empresas de capital aberto no mundo, que estava em 8%, segundo o índice de igualdade de gênero de 2023 da Bloomberg.

A Evil Twin, produtora de som brasileira fundada pelos sócios André Faria e Juliana Tangary, começou o processo de internacionalização após dez anos de atuação no mercado brasileiro. No início, foram projetos pontuais nos Estados Unidos, Japão e outros por meio de contatos deles.

As experiências logo levaram ao desejo de expandir a empresa para outros países de um modo mais formal. Assim, os últimos dois anos da Evil Twin foram focados em mapear o mercado norte-americano e encontrar uma pessoa que pudesse ser esse ponto focal no exterior.

Marcas brasileiras no radar

Para a Out Of Office (OOO) já foi diferente. A agência fundada em 2020 já começou com os fundadores morando em lugares distintos do globo. Beatriz Borges e Catharina Dieterich já estavam nos Estados Unidos na época, e Thales Ferreira estava em São Paulo. “Começamos já com a ambição de ser uma agência global”, lembra Catharina.

Apesar disso, os principais contatos dos fundadores foram clientes brasileiros. Mas um ponto que a empreendedora destaca, e que foi fundamental para a expansão internacional, foi começar a trabalhar com marcas multinacionais. “Essa estratégia de conquistar clientes no Brasil e depois no exterior também é favorecida por marcas brasileiras que já estão aqui [exterior]. A Melissa, por exemplo, foi um dos nossos primeiros clientes, e começamos com campanhas para a marca global. Acredito que essas marcas brasileiras podem abrir portas, ainda mais no momento atual, em que o Brasil e os países da América Latina estão sendo muito bem vistos”, destaca Dieterich.

Multinacionalidades no quadro de funcionários

Outro ponto estrutural que contribuiu para a expansão da agência foi a contratação de profissionais de múltiplas nacionalidades, que traziam suas experiências e contatos para a mesa. “Para ser uma agência internacional, é preciso ter especialistas de território também nesse sentido literal”, continua Catharina.

Catharina Dieterich, co-fundadora e Executive Director da Out Of Office (Crédito: Divulgação)

Catharina Dieterich, co-fundadora e Executive Director da Out Of Office (Crédito: Divulgação)

Hoje, a agência conta com cerca de 80 funcionários em diferentes países, que trabalham de forma remota nos Estados Unidos, na Europa e no Canadá, mas a grande maioria segue no Brasil. Segundo a Fundação Dom Cabral, 78% das empresas que internacionalizaram têm menos de 10% dos funcionários no exterior, e apenas 11,8% alegam que eles dominam a língua necessária à internacionalização. O que revela como não é preciso uma grande estrutura para iniciar esse processo.

A Maria Farinha também partiu deste princípio para a expansão dos negócios. A produtora de filmes de impacto, em 2024, expandiu a atuação com a criação da MFF & CO, um estúdio com sede em Los Angeles. No mesmo ano, adquiriram participação na Violet Films, produtora sediada em Londres.

“Trabalhamos com profissionais que conhecem profundamente seus territórios, suas audiências e suas práticas de produção. Também fazemos coproduções internacionais, então em vez de levar uma visão pronta para outro país, reunimos diferentes vozes desde o desenvolvimento dos projetos”, afirma Luana Lobo, co-CEO da Maria Farinha Filmes, ao lado de Mariana Oliva, também co-CEO.

“Cada empresa mantém sua identidade, sua operação e seu próprio portfólio de projetos. Ao mesmo tempo, compartilhamos oportunidades, talentos e conhecimento de mercado. Temos equipes dedicadas em cada região e nossa estrutura usa uma metodologia de inteligência coletiva. Isso permite que diferentes experiências e pontos de vista participem do processo, tornando o trabalho mais colaborativo e inovador”, continuam as CEOs.

Estratégia de expansão

A escolha do mercado internacional também é um passo importante para a internacionalização. No caso da produtora, EUA e Reino Unido foram os escolhidos. “Os Estados Unidos representam um mercado central para o entretenimento, tanto pelo alcance quanto pelas possibilidades de financiamento, coprodução, talentos e distribuição. Já o Reino Unido foi uma porta de entrada estratégica, pois tínhamos projetos com a Violet Films. Mas os principais critérios para nós são afinidade criativa, complementaridade entre as equipes, acesso a talentos e parceiros, capacidade de alcançar audiências globais e potencial para desenvolver projetos com relevância cultural e força como entretenimento”, reforçam Luana e Mariana.

Luana Lobo e Mariana Oliva, co-CEO da Maria Farinha Filmes (Crédito: Miro)

Luana Lobo e Mariana Oliva, co-CEO da Maria Farinha Filmes (Crédito: Miro)

Para Beth Garcia, a internacionalização ocorreu por meio de um parceiro. Em julho deste ano, agência Approach abriu seu primeiro escritório internacional, em Nova York, nos Estados Unidos, por meio da ApproachAgd., joint venture formada com a AGD, estúdio especializado em tecnologia. A estratégia da empreededora foi levar seu melhor produto e expertise para competir no mercado internacional. Assim como Beth, 43,8% dos empresários com subsidiárias produtivas escolhem os Estados Unidos para estabelecer-se. No mesmo ranking estão México, com 34,4%, e Argentina, com 31,3%, segundo dados da Fundação Dom Cabral.

“Conseguimos, por meio de campanhas de comunicação, transformar o report de ESG em um produto de comunicação, que chamamos de campaignable reports. Atendemos as unidades no Brasil, mas também algumas no exterior, inclusive em outras línguas, como inglês, chinês e espanhol. Percebemos, então, que estava na hora de começar a mostrar mais o nosso trabalho lá fora e captar clientes internacionais”, afirma Beth.

Ter o parceiro certo fez a diferença para consolidar a Approach no exterior. De acordo com a Fundação Dom Cabral, os Estados Unidos concentram 40% das parcerias estratégicas das empresas brasileiras que internacionalizaram, seguido da China (25,9%) e da Suécia (14,8%). “Quando se está distante, sem presença diária no local, é preciso contar com pessoas de muita confiança. Com a AGD, por exemplo, temos uma relação muito próxima, o que facilita a intimidade com a área. Por isso, considero fundamental ter parceiros de confiança, capazes de entregar com excelência”, reforça Garcia.

Entretanto, o elemento central para Beth foi entender qual era a demanda do mercado e como ela poderia suprir com qualidade. “Não se deve oferecer algo que não tenha demanda. É preciso entender se ela existe e se é possível produzir o produto correspondente. Devemos focar naquilo que de fato faz sentido e escolher as próprias batalhas. Caso contrário, começa-se a pulverizar demais os esforços. Para entrar num mercado novo, é melhor escolher um nicho. Nós escolhemos o ESG”, afirma.

As pedras no caminho

Para Juliana Tangary, o principal desafio deste processo foi escolher o profissional que os representaria no novo mercado, para que a pessoa escolhida entendesse do local e também tivesse sinergia com seu negócio. Outro obstáculo, comum a todos que vivenciam esta experiência, é o fuso horário. Trabalhando numa produção japonesa, a equipe da Evil Twin precisava se antecipar em 24 horas para entregar o trabalho combinado.

Conseguir a abertura de mercado, entretanto, parece ser um dos desafios mais comuns. E os contatos são a melhor forma de obter sucesso. “Não somos conhecidos lá fora como somos no Brasil, mas estamos nos tornando conhecidos através dos nossos clientes, por referência”, conta Beth.

Beth Garcia, fundadora e CEO da Approach Comunicação (Crédito: Divulgação)

Beth Garcia, fundadora e CEO da Approach Comunicação (Crédito: Divulgação)

Do lado da Out Of Office, o desafio foi acompanhar o crescimento das demandas e estruturar o negócio para atender ambos os mercados. “É preciso ter uma estrutura que mantenha a nossa excelência, da qual não abrimos mão no Brasil, e que ao mesmo tempo tenha tempo e capacidade para entregar essa mesma excelência sem perder as oportunidades internacionais. É fácil querer focar apenas no que já está crescendo muito organicamente, em detrimento do internacional, que exige um esforço maior”, responde Catharina.

Algumas dificuldades são de ordem cultural, como a língua e o modo de trabalhar. “Nos Estados Unidos, não existe esse jeitinho brasileiro de conversar. As pessoas são muito mais diretas, indo direto ao ponto. A forma de comunicação é bem diferente, não apenas a língua”, reforça Dieterich.

O mais importante, entretanto, é entender que cada mercado possui suas especificidades e demandas, e portanto, é necessário adaptar as soluções para atender aquele público. “Não basta traduzir uma história ou simplesmente reproduzir em outro país, um modelo que funcionou em determinado território. Cada mercado desenvolve, financia, produz e distribui conteúdo de forma distinta”, afirmam Luana e Mariana.

Os desafios, portanto, são grandes, e para Beth Garcia, não há espaço para tentativas. “Você já precisa chegar fazendo certo, porque é um estrangeiro em uma terra nova e será avaliado a fundo”, continua.

Novos horizontes

Ter uma base de contatos, para as entrevistadas, é um dos segredos para internacionalizar um negócio, principalmente se forem seus clientes. Por isso, para Juliana, era essencial ter uma pessoa presencialmente no local para fazer esta intermediação.

“É muito diferente de entrarmos aqui por link, porque, quando se tem presença física, cria-se essa conexão com as agências, com os clientes, com os diretores. Isso fortalece a confiança. Acho que todo trabalho precisa ser baseado em uma relação de confiança e segurança”, afirma. Além disso, ter alguém presencialmente também permite a criação de novos contatos para futuros projetos.

Trabalhar com outros mercados proporcionou um ganho de repertório para Catharina. O processo possibilita entrar em contato com outras culturas, beber de suas fontes, o que contribui diretamente para o trabalho criativo. “Quando trabalhamos com clientes internacionais, além de muitas vezes empolgar o time com projetos que saem da nossa zona de conforto, eu diria que também alimentamos a inteligência coletiva e conseguimos ter mais profundidade nessas diferentes vivências”, reflete a Dieterich.

Para Luana e Mariana, diferenças culturais não são obstáculos, e sim fonte de criatividade e inovação. “A inteligência coletiva é muito importante nesse processo porque permite que diferentes perspectivas participem das decisões criativas e estratégicas. O desafio é encontrar o equilíbrio entre a especificidade que torna uma história autêntica e as emoções universais que permitem que ela atravesse fronteiras”, complementam.

Como já pontuou Beth, é preciso usar de suas fortalezas para adentrar um novo mercado. No caso das agências, esta força é a própria criatividade e engajamento do brasileiro. “Temos essa inteligência, essa vontade de fazer acontecer, de se importar muito com o trabalho. Isso já é algo reconhecido nos brasileiros, assim como a nossa criatividade. E o Brasil está em alta, o que torna o momento muito favorável para o país. O engajamento também é muito alto na publicidade e nas redes sociais. Por isso, acho que somos vistos como uma cultura que entende de comunicação”, acrescenta Catharina.

O mapa à frente

Para Tangary, o próximo passo é divulgar esse processo de internacionalização já com o nome da pessoa que os representará no mercado norte-americano. “Para que todos saibam e continuemos trabalhando para que essa expansão se fortaleça cada vez mais, e para que sejamos vistos no mercado externo, competindo à altura com grandes produtoras, com talento”, responde.

Juliana Tangary, sócia e Chief Operation Officer da Evil Twin (Crédito: Divulgação)

Juliana Tangary, sócia e Chief Operation Officer da Evil Twin (Crédito: Divulgação)

Já para a Out Of Office, os planos são de aumentar o faturamento internacional e investir em outras frentes. “Pretendemos também nos fortalecer e nos consolidar em branding e criação de marcas e identidade visual, área em que já atuamos bastante. Mas acho que, apesar de sermos muito novos, somos reconhecidos principalmente por publicidade e comunicação”, afirma Catharina.

“Nosso foco é seguir com operações consolidadas, fortalecer os portfólios e avançar nas colaborações internacionais que já estão em desenvolvimento”, destacam Luana e Mariana. Em termos dos portfólios, a MFF & CO estabeleceu uma parceria com a Globo para adaptar novelas brasileiras de grande sucesso para séries de língua inglesa voltadas inicialmente ao público norte-americano.

A Maria Farinha Filmes também está com uma série de produções, como o filme sobre a Daiane dos Santos, “A Menina que Voa”, uma série de ficção sobre o movimento da Democracia Corinthiana, um documentário sobre a velejadora Tamara Klink, e outro longa inspirado na vida da fotógrafa ativista Claudia Andujar. Já a Violet Films está com um projeto de um documentário sobre Gisèle Pelicot.

“Atuar em outros territórios fortalece nossa capacidade de ampliar o alcance de histórias que promovem um imaginário restaurativo, atingindo um público ainda maior. Acreditamos que bons projetos circulam por interesse, e não apenas por território. Ao nos estabelecermos em mercados estratégicos, como a Europa e os Estados Unidos, podemos alcançar novos públicos, formar parcerias relevantes e garantir que nossas mensagens cheguem a uma audiência global e diversa”, pontuam as co-CEOs.

O mesmo se aplica para a Approach. O intuito da internacionalização é a ampliação do alcance. Estar em Nova York, para a empresa de comunicação, é estar mais próximo também do mercado europeu.

“Estamos indo para fora, conquistando empresas, e acredito que vai dar muito certo, porque já fazemos isso por aqui. Já entregamos muitos relatórios para o exterior. Consideramos que essa já era uma porta entreaberta, e estamos apenas escancarando essa porta”, conclui Beth Garcia.