Opinião WW

Os desafios da mulher são democráticos

Neste Mês da Mulher, mais do que celebrar, vale lembrar que o futuro do trabalho passa por ambientes mais humanos

Helen Pedroso

Diretora de Responsabilidade Corporativa e Direitos Humanos do Grupo L’Oréal no Brasil 18 de março de 2026 - 8h58

(Crédito: La Famiglia/Shutterstock)

(Crédito: La Famiglia/Shutterstock)

Os desafios de ser mulher são, de certa forma, democráticos. Eles atravessam classes sociais, profissões e contextos diferentes. Mudam de forma, de intensidade, de cenário, mas continuam presentes.

No Mês da Mulher, muitas discussões se concentram em números sobre desigualdade, liderança feminina ou participação no mercado de trabalho. Tudo isso é importante. Mas, no cotidiano, a realidade costuma aparecer em situações muito mais concretas: conciliar carreira, família, expectativas externas e, muitas vezes, a própria culpa.

Recentemente vivi uma situação que me marcou. Uma colaboradora da minha equipe no grupo L’Oréal no Brasil voltou de licença-maternidade há pouco tempo. Nós a contratamos justamente nesse momento de retorno ao mercado, com todas as conversas feitas de forma transparente. Pouco depois, ela engravidou novamente.

Logo que descobriu, entrou na minha sala chorando. Não porque não quisesse o filho. Mas porque estava com medo. Medo de que a maternidade fosse vista como um problema para a carreira. Medo de decepcionar a empresa. Medo de que, de alguma forma, aquilo fosse interpretado como uma falha profissional. Nenhuma mulher deveria precisar viver um momento assim.

A maternidade ainda carrega um peso invisível para muitas mulheres. Não importa o cargo, a área ou o setor. Em diferentes realidades sociais, a pergunta silenciosa continua sendo a mesma: será que posso ser mãe sem colocar minha trajetória profissional em risco? Os contextos mudam, mas as tensões permanecem.

Uma executiva pode lidar com a pressão de continuar performando enquanto equilibra uma rotina exaustiva. Uma trabalhadora informal pode enfrentar a ausência de rede de apoio ou de segurança financeira durante a gestação. Em realidades distintas, o dilema se repete: conciliar cuidado e sobrevivência.

Uma pesquisa recente do Data Favela, intitulada Sonhos da Favela para 2026, ajuda a ampliar essa reflexão. O estudo ouviu mais de 4 mil moradores de comunidades em todo o Brasil e mostrou que o principal desejo das pessoas não está ligado a consumo ou status, mas a algo muito mais essencial: dignidade, segurança, oportunidade e futuro.

Esses sonhos passam, inevitavelmente, pelas mulheres. Porque são elas, muitas vezes, as responsáveis por sustentar, cuidar, organizar e manter de pé estruturas familiares inteiras. E fazem isso enquanto trabalham, empreendem, estudam ou simplesmente tentam encontrar equilíbrio em rotinas que raramente são simples.

Ser mãe mudou profundamente a forma como eu mesma enxergo carreira e liderança. Aprendi que nenhuma escolha é neutra. Toda decisão traz renúncias, mas também novos significados. Durante muito tempo repetimos a ideia de que era preciso “dar conta de tudo”. Hoje, acredito mais na honestidade: não damos. E está tudo bem.

A maternidade não diminui uma mulher no ambiente de trabalho. Pelo contrário. Ela amplia a escuta, fortalece a empatia e aprofunda o senso de responsabilidade. Trabalhar, liderar e cuidar são verbos que podem coexistir. Não sem conflito, mas com propósito.

Neste Mês da Mulher, mais do que celebrar conquistas, vale lembrar que o futuro do trabalho também passa por ambientes mais humanos. Lugares onde mulheres não precisem pedir desculpa por viver suas vidas. E onde nenhuma delas precise entrar em uma sala chorando por medo de ser mãe.