Precisamos falar sobre a culpa de usar a IA
Como você tem lidado com a "terceirização" do trabalho braçal para a IA?

(Crédito: Shutterstock)
O ano começa e, com ele, quem não inicia também uma lista imensa de tarefas? Um dos novos desafios que adorei receber este ano foi liderar um plano de ação para melhorarmos pontos cruciais de execução, indicados por uma pesquisa interna de clima. O escopo? Todo o Marketing do Google na América Latina.
De repente, me deparei com uma daquelas planilhas de Excel, repletas de linhas, insights valiosos e comentários abertos.
Foi quando recorri ao meu já grande parceiro: o NotebookLM. Em não mais de cinco minutos, inseri minha base de dados e, seguindo minhas instruções, o NotebookLM tabulou o que funcionava, identificou os principais problemas relatados pelo time e montou um plano inicial de ação.
A partir do que a ferramenta propôs, fiz um filtro: tirei o que não fazia sentido no nosso contexto, acrescentei ideias, conversei com colegas e refinei. Tcharan! Tudo pronto para ser validado com a liderança antes do que eu tinha previsto.
Mas, refletindo depois, confesso que encarei esse processo todo com um misto de alívio — “pronto, já tenho algo para mostrar rapidamente!” — e uma certa vergonha. A pergunta que ecoava era: “Poxa, mas não era justamente esse o meu trabalho?”.
Dividi esse sentimento, um tanto desconfortável, com meu pai. Aos 70 anos, engenheiro e programador, ele agora atua a fundo no que chamamos de vibe coding*. Para minha surpresa, o sentimento dele era meio que o mesmo e ainda me acalmou me contando que o Andrej Karpathy, cofundador da OpenAI, ex-diretor de IA da Tesla e o próprio inventor do termo vibe coding, passou por algo semelhante.
Não se trata então apenas de um caso familiar de “vergonha da IA”. O Andrej mencionou recentemente que, desde o final do ano passado, realiza 80% do seu trabalho com modelos de IA, deixando apenas 20% para a revisão. Ele chegou a dizer como isso pode, inclusive, ferir o ego.
Então, com o ego meio ferido, mas fazendo um exercício honesto, assumi que, de fato, para a tarefa que eu tinha pela frente, foi uma bela saída. Ganhei tempo e o produto final talvez seja melhor. O mais importante foi onde concentrei minha energia: em avaliar criticamente o plano inicial, pensar em outras ferramentas para ajudar o time, conectar com pessoas e entender pontos de vista diferentes.
Talvez precisemos abandonar a vergonha e abraçar essa nova inquietação. Imagino que seja esse o exercício de humildade que vamos precisar fazer agora: repensar onde, de fato, trazemos maior valor.
Fica então a provocação: como você tem lidado com a “terceirização” do trabalho braçal para a IA? E, acima de tudo, o que você está fazendo com o tempo que ganhou para se reconectar com o que é humano?