Tá no Ar: o diferentão!

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Tá no Ar: o diferentão!

Marcelo Adnet: ele é um dos roteiristas e atores do Tá no Ar, programa que tem alavancado críticas positivas e que caminha para a quarta temporada

Teresa Levin
13 de abril de 2016 - 15h56

 

Para o humorista, Tá no Ar quebra padrões na televisão e traz o novo, goste-se ou não

“Quando tentamos entender muito o que o público quer, às vezes, nos perdemos. ”É o que acredita Marcelo Adnet, humorista que vem acumulando sucessos na carreira que teve destaque inicialmente na MTV, mas que, ao longo do tempo, extrapolou para outras plataformas. Atualmente na Rede Globo, Adnet é um dos roteiristas e atores do Tá no Ar, programa que tem alavancado críticas positivas e que caminha para a quarta temporada, quebrando o padrão usual do humor na TV brasileira. Para o humorista, a atração quebra padrões na televisão e traz o novo, goste-se ou não. Assim como a TV, ele acredita que a publicidade vive um momento especial, de mudanças, e deve sair do que é esperado, fugindo do óbvio encontrado em comerciais como os do setor bancário. O encontro com a TV se deu quando participou de um programa da MTV para divulgar o longa Podecrer!, de 2007. A partir de lá, o também ator, apresentador, músico e jornalista (assinou coluna no jornal O Globo) se tornaria conhecido pelo programa 15 Minutos, da MTV. Antes, já havia a carga hereditária: o pai, Francisco Adnet, é cantor, instrumentalista e arranjador, que compunha jingles publicitários. Os tios Mario, Maucha e Muiza são cantores. A avó era professora de artes, e o avô, desenhista e cartunista. O ambiente, portanto, permitiu a manifestação artística desde a infância, quando já fazia imitações de sambistas, radialistas e apresentadores de TV, o que lhe daria o estofo que pode ser visto atualmente na tela da Globo. A carreira artística formal começa na PUC-Rio, quando fazia comunicação e foi convidado para uma peça de improviso com colegas atualmente reconhecidos no mundo do humor como Fernando Caruso, Rafael Queiroga e Gregório Duvivier. Em entrevista a Meio & Mensagem, o humorista, que é considerado um dos mais brilhantes de sua geração, conta como desenvolve a criatividade, o que faz para se diferenciar de outros comediantes e onde busca inspiração para a criação.

 

Adnet em participação no Amor & Sexo como cantor

Meio & Mensagem — Como se desenvolve a criatividade de um roteirista?

Marcelo Adnet — Minha maior arma é ouvir. Tem também, claro, a visão, mas é a audição, principalmente. Gosto muito de observar e, ao observar o mundo, o comportamento das pessoas, os sotaques, vozes, gírias, vícios e o que está em alta, colho um material muito vasto. Até por isso acho que faço muita música. Depois de colher, rola um outro processo que é o de combinar todas as informações que recolhi. De tudo que tem na sociedade, temos um pouco, mas agimos como cronista ou cronista do absurdo, no momento de realinhar e combinar essas informações. Adoro brainstorming, falar, sair brincando, fazer trocadilho, músicas, pensamentos e ideias surreais que choquem. Gosto do brainstorming e de jogar coisa fora, obviamente, mas uma quantidade significativa de todas as besteiras faladas vira conteúdo para algo. E aí temos outra coisa que é o nível de desenvolvimento que fazemos com esse conteúdo, já que faço desde improvisos básicos, como o que está no Tá no Ar, que tem ideias mais desenvolvidas, transformando cenário, texto etc. Diria que minha criatividade de roteirista vem, basicamente, de observar o mundo, a sociedade e o que o ser humano faz, e depois brincar com todos estes assets, essas informações. E aí entendo que tudo está envolvido: imprensa, jornalismo, gíria, comportamento etc.

M&M — Como se diferenciar do que é recorrente em sua área?

Adnet — A diferenciação se dá quando olhamos para o que temos. Nós temos uma personalidade marcante e, quando somos fiéis a isso, achamos uma diferenciação, um caminho diferente. Quando tentamos entender muito o outro, o que o público quer, às vezes, nos perdemos. A TV, por muitos anos, ficou limitada por uma ideia, que para mim é falsa, de que existe uma classe C emergente e é ela que vê TV, que paga os anunciantes. Essa classe C teria gostos que você não pode contrariar. Portanto, não se faziam programas como o Tá no Ar nos anos anteriores — por conta dessa lenda e cultura de que a classe C não quer isso que estamos dando. Na era contemporânea, tivemos de sair desse raciocínio de que é isso que o público quer. É uma mentira. Fazendo bem, e benfeito, você pode fazer o que quiser, as pessoas se identificam, criam uma identidade. Ousadia e diferenciação são uma marca. Claro que não gosto de repetir o que já fizeram, não me soa muito atrativo. Acompanho o movimento mundial, mesmo que superficialmente, e tomo cuidado de não repetir ninguém diretamente. Personalidade é uma marca, já é uma diferenciação.

 

A manifestação artística vem desde a infância, quando já fazia imitações de sambistas, radialistas e apresentadores de TV

M&M — Quais são as suas influências?

Adnet — Monty Python, TV Pirata, Casseta & Planeta da década de 1990, por exemplo. Uma influência boa também é Saturday Night Live e todo o movimento de teatro brasileiro de comédia. Entre as influências básicas, foram essas, mas tem as que são indiretas como música, jornalismo. Tenho também interesse por países estrangeiros que trazem outro tipo de referência e bagagem específica para mim, que entram na questão da personalidade, trazendo interesses específicos.

M&M — Qual é a relação que você tem com a publicidade? É a favor de fazer?

Adnet — A publicidade sofre um pouquinho também com a questão da lenda da mídia. É o comercial de TV que temos de fazer assim, o comercial de banco que tem de ser sempre muito subjetivo, falando indiretamente de taxas. Eu sou consumidor e como consumidor combato muito o clichê publicitário. Gosto muito de brincar no humor, que é muito forte. Um comercial de TV pode ser forte, seja de banco, seja de cerveja. Nós brincamos no Tá no Ar e, quando faço publicidade, trato com paixão. Hoje em dia, você agrega mais para uma marca quando quebra a cartilha institucional do que quando a segue. Quando sou convidado para uma campanha, participo do roteiro e da criação do conceito para que seja algo que tenha a ver comigo ou que eu esteja satisfeito e feliz, inteiro ali dentro. Sempre foco no que vai ser a campanha, mas em criar coisas diferentes, surpreendentes, que tenham não a cara de uma publicidade tradicional, mas sim de uma publicidade mais moderna. A publicidade está em um momento interessante de ter que se atualizar, indo muito além do comercial clássico, do que era feito tradicionalmente em um filme de 30 segundos. Isso se expandiu muito em diversas plataformas. Hoje, as marcas têm de estar no Twitter, Facebook, em sites na internet e entender o que são esses meios para estar neles. A questão é mais complexa e mais rica para a publicidade, que ganhou diversas novas mídias e agora tem de sair do tradicional e arriscar mais nos novos meios.

M&M — Pode antecipar os trabalhos que você terá à frente?

Adnet – Por enquanto temos a sequência do Penetras e estou desenvolvendo um novo projeto para a Globo. Ao mesmo tempo, já estamos no planejamento da quarta temporada do Tá no Ar. É um programa que vejo muito bem, gosto de assistir, tenho orgulho de fazer. É ousadíssimo para o padrão da TV atual e, mal ou bem, goste ou não, traz avanços, quebra tabus e expande um pouquinho a fronteira do humor na TV. E por isso devemos comemorar.

A íntegra desta entrevista está publicada na edição 1705, de 11 de abril, exclusivamente para assinantes, disponível nas versões impressa e para tablets nos padrões iOS e Android.

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