Pesquisa

Estudo revela impacto da IA nas “canetas emagrecedoras”

Pesquisa da LLYC mostra de que forma a IA está redefinindo esse mercado no Brasil

i 16 de junho de 2026 - 6h01

IA canetas

(Crédito: Edugrafo/ Shutterstock)

A jornada de milhões de brasileiros em busca de tratamentos para obesidade e diabetes está passando por uma grande transformação. O estudo “Canetas emagrecedoras e o novo peso da IA”, desenvolvido pela LLYC, em parceria com a Digital Solvers by LLYC, revela que a IA generativa tem se tornado o medidor central nas decisões de saúde, deslocando a disputa comercial das prateleiras das farmácias para o ambiente dos algoritmos.

Com a ascensão de modelos de IA generativa, como ChatGPT, Gemini e Claude, a busca por informações no Google ou por links em sites oficiais tem sido substituída por respostas diretas em ferramentas de inteligência artificial.

Segundo dados da OpenAI, mais de 40 milhões de pessoas recorrem diariamente ao ChatGPT para questões relacionadas à saúde só nos Estados Unidos e, em alguns contextos, até 60% das buscas já se encerram sem interação com links externos.

Para chegar nos resultados, o estudo da LLYC submeteu testes em seis dos principais modelos de IA ativos no Brasil (ChatGPT, Gemini, Google AI Overview, Copilot e Perplexity), monitorou as respostas geradas e compilou tudo em um banco de dados com mais 555 mil menções algorítmicas.

O tratamento estatístico da pesquisa separou a molécula (princípio ativo) de suas respectivas marcas comerciais e laboratórios, permitindo avaliar métricas como Share of Voice (SoV), Visibilidade, Posicionamento e Sentimento.

Moléculas em foco

Quanto ao Share of Voice, o estudo indicou que as IAs priorizam a base científica dos tratamentos em detrimento do marketing das marcas.

Enquanto a Semaglutida lidera a visibilidade nas repostas, com 91,7%, marcas como Ozempic (70,6%) e Wegovy (72,7%) lutam para capturar essa associação total. Além disso, juntos, os princípios ativos Semaglutida e Tirzepatida dominam mais de 41% de toda a “voz” gerada pelas IAs sobre o tema no Brasil.

Segundo o estudo, essa lógica acaba criando um “gap de visibilidade”, uma vez que marcas que não habitam o mesmo ecossistema semântico de sua molécula correm o risco de “desaparecer” para a IA. Neste sentido, o relatório indica que em duas de cada dez respostas sobre semaglutida, nenhuma marca sequer é citada.

A pesquisa mostra que Wegovy, Mounjaro e Saxenda ocupam, nesta ordem, o pódio de associação com suas respectivas moléculas, e que o Wegovy é a mais eficiente no que diz respeito ao “gap de visibilidade”.

“Apesar das restrições regulatórias promocionais, as necessidades de citação e construção de marca ficam ainda mais evidentes em um mercado marcado pelo avanço da perda de patentes. A marca que não habitar o mesmo ecossistema semântico da molécula simplesmente desaparece da resposta da IA”, enfatiza Luiz Marcelo Abate de Siqueira, sócio-diretor da Digital Solvers by LLYC.

O executivo salienta que se o algoritmo aprende com literatura científica e guidelines clínicos, que só falam em semaglutida, não em Ozempic, então, a estratégia de publicação de materiais para a imprensa, seja um press release, um artigo ou um videocast com médico, precisa correlacionar explicitamente o princípio ativo à marca. “Não dá mais para pensar em comunicação de produto sem comunicação de molécula”, alerta.

Fronteiras regulatórias ignoradas

No entanto, Siqueira destaca que a maior surpresa do estudo foi constatar que produtos sem registro na Anvisa estão disputando visibilidade nos algoritmos das inteligências artificiais com marcas regularmente vendidas nas farmácias brasileiras.

A pesquisa indica que medicamentos sem registro no Brasil ou ainda em fase de pesquisa já possuem alta visibilidade nas consultas feitas por usuários brasileiros nas IAs. Por exemplo, a marca Zepbound, da Eli Lilly, não existe comercialmente no Brasil, mas aparece com 26% de presença nas respostas das IAs para usuários daqui. A retatrutida é um fármaco ainda em fase 3 de pesquisa, sequer lançado, e já tem alta visibilidade algorítmica.

“Isso revela algo que a indústria ainda não assimilou: que os algoritmos não respeitam fronteiras regulatórias. Eles aprendem com o mundo inteiro e respondem como se o Brasil fosse um mercado global sem restrições”, frisa Siqueira.

Um dado mais alarmante, segundo o estudo, é presença de marcas irregulares e proibidas no Brasil, como TG (Indufar), Synedica (Cedca) e Lipoless, aparecendo nas respostas de IAs por serem amplamente discutidas em redes sociais. Embora a IA capte o sentimento negativo associado a apreensões e riscos à saúde dessas marcas irregulares, sua simples menção demonstra a complexidade do controle de informações no ambiente algorítmico.

Qualidade da informação

O estudo acende ainda um alerta sobre a qualidade da informação científica relacionadas as canetas. De acordo com o levantamento, por exemplo, redes sociais como Instagram (133,4% de taxa de uso relativo nos dados de treinamento analisados) e o YouTube (93,1%), figuram como fontes de influência massiva da IAs na discussão sobre “canetas emagrecedoras”.

Neste caso, os algoritmos processam volumes incalculáveis de relatos de jornada de pacientes, diários de emagrecimento de influenciadores e discussões do mercado paralelo, para moldar suas narrativas e recomendações. Enquanto fontes institucionais de alto rigor científico, como o NIH.gov ou o portal da Anvisa, aparecem em posições secundárias na hierarquia de volume de dados, seguidas por portais editoriais de saúde e sites corporativos de grandes redes de farmácias, entre outros.

“A IA, muitas vezes, aprende mais com depoimentos de pacientes e médicos influenciadores do que com literatura científica revisada por pares. Isso representa um risco real à saúde pública pela falta de informações qualificadas sobre tratamentos” afirma o sócio-diretor da Digital Solvers by LLYC.

Diante desse cenário, apesar de não ter como garantir que essas ferramentas tragam sempre informações seguras e confiáveis, Siqueira salienta que a indústria farmacêutica, as sociedades médicas e os órgãos reguladores precisam ocupar um espaço de relevância no que tem chamado de “Machine Marketing”, ou marketing feito para máquinas.

“A palavra de ordem é oferecer boas informações científicas, como sempre fizeram, porém, desta vez, em formatos estruturados para leitura de algoritmos”, explica Siqueira, ressaltando que conteúdos publicados em HTML semântico, com marcações de dados estruturados e linguagem técnica densa, são absorvidos de forma muito mais eficiente pelos modelos de linguagem do que PDFs convencionais ou páginas institucionais visualmente ricas e semanticamente vazias.

“O desafio não é somente técnico, é cultural, exige que a indústria assuma a responsabilidade de alimentar o ecossistema digital com ciência de qualidade antes que o influenciador de plantão faça isso com desinformação”, argumenta.

Com a queda no Brasil da patente da semaglutida, substância utilizada em medicamentos como Ozempic e Wegovy, em março de 2026, a competição neste mercado promete se intensificar. “A questão não é mais apenas quem vende mais, mas quem a IA recomenda primeiro”, conclui o estudo.

Logo, nesse mercado, de acordo com o relatório, moldar a resposta da IA tornou-se o novo imperativo de sobrevivência. “A pergunta estratégica mudou: não é mais ‘como apareço no Google’ e sim ‘o que a IA vai responder quando alguém perguntar sobre minha molécula às 23h de um domingo?’. Quem escreve a ciência hoje está contribuindo para as boas respostas de amanhã”, pontua Siqueira.