Marketing

Incerteza no GPA desafia capacidade de reação da marca

Relatório aponta risco operacional, mas força da bandeira deve funcionar como amortecedor perante o público

i 2 de março de 2026 - 6h00

Na semana passada, o GPA divulgou seu relatório anual de 2025 e, com ele, notas explicativas que indicam incerteza sobre seu futuro. Segundo o relatório, existem “condições que indicam a existência de incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa sobre a continuidade operacional da companhia”.

Incerteza no GPA

GPA registrou um prejuízo líquido consolidado de R$ 572 milhões, no quarto trimestre de 2025 (Crédito: Wirestock Creators/Shutterstock)

Essa análise está embasada, sobretudo, no fato de que a companhia encerrou o ano de 2025 com um déficit de capital circulante líquido – indicador que mede a capacidade de uma empresa de cumprir com suas obrigações de curto prazo – de aproximadamente R$ 1,2 bilhão.

Além disso, no quarto trimestre do ano passado, o GPA registrou um prejuízo líquido consolidado de R$ 572 milhões.

O economista e professor de MBAs da FGV, Roberto Kanter, explica que esse tipo de declaração é uma exigência contábil que acontece quando a companhia entende que suas condições atuais podem colocar em dúvida sua capacidade de continuar operando normalmente pelo próximo ano.

O documento funcionaria como uma forma de transparência para os credores e investidores, indicando que existe risco concreto de a que empresa não consiga honrar com os seus compromissos, caso não reverta o cenário.

“Na prática, significa que os indicadores econômicos e financeiros, como prejuízos recorrentes, capital de giro líquido negativo, vencimentos de dívida próximos e restrição de acesso a crédito foram considerados suficientemente graves para colocar sob dúvida se o GPA continuará viável no horizonte próximo se não conseguiu reverter essa trajetória”, aponta o economista.

A partir dessa realidade, Kanter vislumbra três cenários possíveis. O primeiro deles seria uma reestruturação financeira interna do GPA com venda de ativos, renegociação de prazos com credores e redução de custos operacionais. Outra possibilidade seria atrair investidores ou controladores que aportem recursos na operação.

Caso as negociações não sejam bem-sucedidas e os indicadores continuem deteriorados, a companhia pode buscar mecanismos legais para a reestruturação, como a recuperação judicial.

“Depois do acontecimento Americanas, o mercado vem exigindo das empresas um compromisso com a transparência. É louvável que o GPA se exponha dessa forma, mas as chances de um pedido de recuperação judicial me parecem ser razoáveis e isso talvez afete a relação com seus fornecedores”, aponta o professor da FGV.

Força de marca do GPA

Em um cenário como esse, como a força da marca Pão de Açúcar pode auxiliar? Ao Meio & Mensagem e em parceria com a Timelens, a FutureBrand fez um levantamento sobre a percepção da marca com dados digitais que incluem buscas, menções online e um diagnóstico de força de marca.

“Quando a crise é corporativa e envolve questionamentos sobre continuidade operacional, o principal ativo em jogo é confiança. Os dados mostram que o Pão de Açúcar mantém um capital reputacional relevante”, aponta Estela Brunhara, sócio-diretora da FutureBrand.

A marca concentraria 18% do share de buscas do setor, em um ambiente concentrado por bandeiras associadas a preço. No digital, 85% das menções são positivas e as principais associações estão ligadas a vinhos (30%), padaria (29%) e perecíveis (27%).

“Em crises corporativas, esse histórico tende a funcionar como um amortecedor inicial. Consumidores costumam reagir mais à experiência concreta do que à informação financeira, desde que não haja impacto visível na entrega”, analisa Estela.

No Future-Proof Score, da Timelens, consultoria de dados da FutureBrand, a marca teve maior desempenho no atributo “gera valor sustentável”, mas é 11 vezes menos associada à inovação do que as top 30 marcas líderes do ranking. Para a executiva, em um cenário de crise, a percepção de capacidade de reação e transformação é relevante.

“A baixa associação à inovação sugere que parte da percepção pública ainda vê a marca como tradicional, mas pouco transformadora. Em um momento como esse, comunicar avanços concretos, em eficiência, experiência ou modelo operacional, pode contribuir para sustentar a narrativa de continuidade”, defende a sócio-diretora da FutureBrand.