Neymar e o futebol brasileiro
A notícia que o Santos mais uma vez recusou a oferta de transferir Neymar para um grande clube europeu causou alvoroço no Brasil e no exterior.
Os veículos internacionais tratam o tema como uma mudança radical na relação dos clubes brasileiros com o mercado internacional de futebol. Os veículos brasileiros já partiram para o ufanismo exacerbado, falando que agora o futebol brasileiro está em outro patamar e não vai mais ser subserviente às vontades dos gigantes do futebol europeu.
Tenho uma opinião um pouco mais racional sobre o assunto. A decisão do Santos em segurar o Neymar até 2014 é realmente importante para nosso mercado e pode inclusive ser com considerado um marco no futebol brasileiro.
Por outro lado acredito que temos que ser mais realistas analisando melhor o tema. Obviamente que é ótimo saber que um craque dos campos e da mídia como é o Neymar ficará no Brasil, mas ele é exceção e não regra.
Além disso, para o Santos não valia a pena transferi-lo, pois o percentual que o clube receberia na transferência é muito pequeno em comparação com o potencial de geração de receita do craque associado ao clube e empresas parceiras.
Isso significa que nesse momento não temos outro exemplo como ele, para que já nos achemos o centro financeiro do mundo do futebol. Para que o mercado atinja esse grau de desenvolvimento que muitos defendem que já chegou, há um longo e contínuo trabalho para ser realizado.
Realidade que os clubes da Europa já viveram há mais de uma década.
Nossos clubes estão melhorando sua atuação mercadológica, mas fazem um marketing esportivo da “era da pedra lascada” em comparação aos gigantes europeus. Mesmo que o Brasil esteja em uma situação econômica extremamente favorável, nossos clubes estão muito aquém de seu potencial e ainda dependem muito de transferências de atletas para tentar equilibrar suas contas.
O Corinthians, o clube com maior faturamento do Brasil, por exemplo, excluídas as receitas com transferências de atletas, gerou uma receita em 2010 de R$ 177,7 milhões, ou 77 milhões de euros.
Esse montante representa menos de 20% do que fatura um clube top na Europa atualmente!
Por isso, o caso do Neymar deveria gerar uma reflexão do que temos que fazer para que nossos clubes cresçam mercadologicamente. Estamos em um estágio embrionário do que temos que nos transformar.
E essa reflexão deve ser feita sem ufanismos e irracionalidade.

Amir Somoggi é diretor de consultoria em gestão esportiva da BDO.