Reeleito, Lula reclama da “intromissão” das big techs
Presidente defende maior controle sobre as plataformas digitais, mas terá cenário complexo para tratar o tema no novo Congresso

(Imagem gerada por IA via Gemini)
Em seu discurso, na noite de domingo, 25, após ter sua vitória confirmada no segundo turno das eleições presidenciais, entre agradecimentos e outros temas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reclamou do que classificou como “intromissão” das plataformas nas eleições e reiterou a necessidade de regulação das big techs.
Mas a avaliação de alguns analistas não coincide exatamente com a interpretação do presidente, assim como preveem que o ritmo dessa regulação pode não ser o desejado por ele. Nesse último aspecto, o professor Claudio Felisoni, da FIA Business School, avalia que a vitória de Lula tende a manter uma pressão regulatória sobre as big techs. No entanto, a pauta depende do Congresso e não do Planalto — e o Congresso, agora, é majoritariamente de direta, logo, se opõe a Lula.
Ele cita o PL 4675/2025 que pretende ampliar o poder do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), para fiscalizar empresas de tecnologia que faturem acima de R$ 5 bilhões no Brasil ou R$ 50 bilhões globalmente e representem riscos de concorrência. “Isso está na câmara, sem avanço substancial. Acredito que com essa divisão política vai caminhar muito lentamente. Talvez para uma solução de consenso, mas muito lentamente”, avalia.
Renato Meirelles, CEO do Instituto Locomotiva, reconhece que as eleições chamaram atenção para as big techs e a própria Meta, em particular, reconheceu publicamente falhas durante a campanha, como conta de anúncios desativada por engano, impulsionamento bloqueado por um erro de atualização, uma brecha na ferramenta de inteligência artificial – a empresa mantém um conselho de supervisão, chamado Oversight Board, independente, ao qual usuários do Instagram e Facebook podem recorrer para contestar remoções ou restaurações de conteúdos.
“A empresa nega ter favorecido qualquer candidato. Mas o fato de admitir as falhas mostra o tamanho do problema: quando uma atualização de código interfere no que milhões de pessoas veem na reta final de uma eleição, a questão deixa de ser técnica”, analisa Meirelles, para quem “nada mais legítimo do que o Estado brasileiro regular uma entidade com tanto poder”, uma vez que bancos, operadoras de telefonia e emissoras de TV são reguladas. “Uma empresa que organiza a informação, o comércio e a conversa de boa parte do País não pode ser a exceção”, defende.
Para o CEO do instituto de pesquisas, o consumidor chegou ao tema antes da política, ao fazer questionamentos sobre o porquê determinado anúncio aparece para ele ou o que o filho está vendo no celular. “Nas nossas pesquisas, quase oito em cada dez brasileiros defendem responsabilizar as big techs. É um raro consenso, que atravessa ideologias”, pontua.
Sua hipótese é que a regulação tem maioria se falar de dúvidas, como da criança no celular ou de crimes digitais. “Se parecer acerto de contas da eleição, perde parte dessa maioria. Para o mercado de comunicação, arrisco dizer que a transparência sobre alcance e recomendação vai virar exigência permanente, também dos anunciantes, que vão querer saber onde a marca aparece e por que”.
Disrtribuição algorítmica
Já para Roberto Kanter, professor dos MBAs de gestão estratégica e econômica de negócios da FGV, o grande fenômeno do segundo turno não foi a interferência das plataformas digitais, mas a força que ganharam as micro e nanoinfluências. “Estamos acostumados a pensar em influência digital como algo associado a grandes personalidades, milhões de seguidores e enormes audiências. Mas essa eleição mostrou a importância de pessoas comuns que passaram a se posicionar politicamente dentro de seus próprios círculos de relacionamento”, avalia.
Para ele, mesmo com poucos seguidores, essas pessoas têm a confiança de seu círculo próximo como ativo. E, nesse momento, entra o papel dos algoritmos, uma vez que as plataformas digitais organizam boa parte da informação que as pessoas recebem com base em seus interesses, relacionamentos e comportamentos anteriores. “Isso contribui para a formação de bolhas sociais e informacionais, nas quais determinados conteúdos e opiniões circulam com maior intensidade. A militância digital de Lula compreendeu a importância de atuar dentro dessas pequenas comunidades de relacionamento”, acrescenta Kanter.
Esse fator teria sido um dos principais a ajudarem o presidente a conquistar dez milhões a mais de votos entre o primeiro e o segundo turno. A transformação na comunicação teria sido, então, migrar de poucos que falam para milhões para milhões que falam para seus pequenos grupos.
Para o professor da FGV, as big techs continuaram operando seus modelos habituais de distribuição algorítmica de conteúdos e não houve elementos suficientes para afirmar que as grandes plataformas tenham atuado deliberadamente para favorecer um dos candidatos. “Isso não significa que os algoritmos sejam neutros em seus efeitos. Influenciam a visibilidade dos conteúdos e podem reforçar determinadas percepções. Mas existe uma diferença importante entre o funcionamento de um algoritmo e uma decisão deliberada de interferir no processo eleitoral”, diz.
Para ele, a discussão que fica para o próximo governo é justamente como construir maior transparência sobre esses mecanismos, sem comprometer a liberdade de expressão. “Para mim, a grande lição dessa eleição é que as plataformas oferecem a infraestrutura de comunicação, mas são as pessoas que constroem relações de confiança dentro dela. O algoritmo organiza as bolhas. As pessoas exercem a influência. E a militância pode transformar essa influência em mobilização política”, conclui.