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Por que a Netflix está mais parecida com a TV?

Serviço de streaming, aparentemente, estuda criar canais always-on que reproduziriam conteúdo como a televisão

i 16 de julho de 2026 - 6h03

A Netflix pode ficar mais parecida com a TV tradicional? Sim e por vários motivos.

A combinação de mudanças no modelo de negócio e na forma como as pessoas assistem a conteúdo são alguns fatores que explicam essa guinada do mais popular serviço de streaming do mundo em direção à televisão.

Para efeito de comparação, no final de 2025, a Netflix tinha 325 milhões de assinaturas pagas.

Segundo o serviço, isso representa audiência de quase 1 bilhão de pessoas ao se considerar que cada assinatura costuma ser compartilhada por mais de uma pessoa.

Já a TV chega a 5 bilhões de pessoas no mundo em um dos seus formatos (aberta, paga ou via internet).

As estimativas são da indústria de TV e de empresas de pesquisa de mídia.

Em termos de domicílios, há, aproximadamente, 1,7 bilhão com, ao menos, um aparelho de TV no planeta.

Assim, o alcance do meio nos lares supera os 70% globalmente e chega a mais de 90% em países desenvolvidos.

Fatores que aproximam a Netflix da TV

São vários os fatores que estreitam a distância entre o streaming da Netflix e a televisão:

– Publicidade: a Netflix tem expandido seu plano com anúncios.

Se a parcela de assinantes nesse plano crescer, a experiência pode se aproximar da TV aberta ou paga, com intervalos comerciais.

– Programação ao vivo: a plataforma já transmite alguns eventos ao vivo, como lutas, programas especiais e eventos esportivos selecionados.

Isso, de fato, aproxima a experiência da programação televisiva, em que muitos assistem ao mesmo conteúdo ao mesmo tempo.

– Conteúdo com lançamento semanal: em vez de oferecer a temporada inteira de uma só vez, algumas séries podem ter episódios lançados semanalmente, como acontece na TV, para manter o interesse do público por mais tempo.

Importante destacar que foi a própria Netflix que disseminou o conceito binge-watching (maratonar), quando, em 2013, lançou House of Cards de uma só vez.

No entanto, o binge-watching nasceu antes, em 1998, em um fórum sobre a série Arquivo X (que era da Fox).

– Canais e recomendações contínuas: há um movimento em plataformas de streaming para criar experiências de reprodução contínua, em que o usuário simplesmente “liga” um canal temático em vez de escolher um título específico.

– Maior investimento em esportes e eventos: conteúdo ao vivo, especialmente esportivo, como a Copa do Mundo, é um dos principais diferenciais da TV tradicional.

Se a Netflix ampliar esse tipo de oferta, a semelhança com a TV aumenta.

Características que diferenciam a Netflix da TV

Ao mesmo tempo, a Netflix mantém características que a diferenciam da TV tradicional:

– O usuário escolhe quando assistir à maior parte do catálogo.

– É possível pausar, voltar e assistir sob demanda.

– As recomendações podem ser personalizadas para cada usuário.

Portanto, a tendência não é que a Netflix deixe de ser um serviço de streaming, mas que incorpore elementos da TV tradicional — como anúncios, transmissões ao vivo e programação em horários específicos — enquanto preserva a flexibilidade do conteúdo sob demanda.

Canais always-on

Segundo reportagem do The Wall Street Journal, contudo, a Netflix estuda a criação de canais “always-on” (24 horas por dia), que reproduziriam conteúdo continuamente, sem que o usuário precise escolher um filme ou série a cada vez.

A empresa não anunciou oficialmente esse recurso e nem comentou sobre isso.

A ideia seria oferecer canais temáticos como, por exemplo, comédias 24/7, filmes de ação o dia todo, séries de suspense em sequência, conteúdo infantil contínuo e maratonas de uma franquia ou série específica.

Ou seja, quase um canal de TV pago especializado num desses segmentos.

Também é bastante similar ao que o cardápio da home da Netflix oferece quando mostra blocos de opções conforme o gosto do assinante.

O objetivo é atender quem prefere simplesmente “ligar a TV” e deixar “rolar” o conteúdo sem se preocupar em escolher o que assistir.

Esse tipo de experiência já existe em serviços como Pluto TV, Tubi e tem sido testado por outras plataformas de streaming.

Além de facilitar o consumo passivo, esses canais também podem fortalecer o negócio de publicidade da Netflix, já que transmissões contínuas e ao vivo costumam oferecer mais oportunidades para inserção de anúncios, especialmente no plano com publicidade.

Portanto, se a iniciativa for adiante, a Netflix ficará ainda mais parecida com a TV tradicional em alguns aspectos, mas continuará a oferecer seu catálogo sob demanda, o que caracteriza o streaming.

Dessa forma, em vez de substituir o modelo atual, os canais “always-on” seriam mais uma forma de assistir ao conteúdo.

Por que a Netflix considera novos modelos?

A Netflix se consolidou como líder na indústria de serviços de streaming de vídeo, mas o preço de suas ações caiu mais de 40% nos últimos 12 meses, e sua margem operacional deve cair ano a ano em abril de 2026, segundo o The Wall Street Journal.

Dados da Nielsen, ademais, mostram que a participação da Netflix na audiência televisiva em abril deste ano caiu para 7,8%, o menor nível desde maio do ano passado.

Apesar de a Netflix ser o serviço de streaming pago mais popular do mundo, a empresa tem tido dificuldade para manter os espectadores presos às suas séries após as primeiras temporadas.

A série Treta (Beef, no original) é exemplo disso. Estreou em 2023 e, ao voltar com a segunda temporada este ano, perdeu 70% de sua audiência.

Alguns dos problemas da Netflix estão enraizados em suas próprias práticas internas, como a forma como tende a cancelar séries justamente quando começam a ficar mais caras de produzir.

A despeito do sucesso da série, a Netflix tem cancelado sucessivamente várias produções.

Também não ajuda o fato de que, no geral, a espera entre as temporadas das séries tem aumentado gradualmente, o que facilita que as pessoas percam o interesse.

Algo que o assinante da HBO Max conhece bem: a primeira temporada de Euphoria estreou em 2019, a segunda em 2022 e a terceira este ano.

TikTok e YouTube

Ainda, a Netflix precisa lidar com a realidade de que concorrentes como TikTok e YouTube têm capturano a atenção das pessoas de maneiras que ela mesma não consegue.

Por isso mesmo, a Netflix também planeja experimentar conteúdo curto que pareça ser feito para ser consumido nos momentos em que as pessoas têm tempo livre.

Mas o simples fato de TikTok e YouTube serem gratuitos os torna significativamente mais acessíveis do que a Netflix.