Entrevista

Mariana Becker: a comunicação como motor da Fórmula 1

Jornalista revisita sua trajetória e analisa a diversidade, ambiente digital e o futuro da categoria

i 14 de julho de 2026 - 10h57

Referência no jornalismo esportivo, Mariana Becker acompanha de perto as transformações da Fórmula 1 há quase duas décadas (Crédito: Divulgação)

Referência no jornalismo esportivo, Mariana Becker acompanha de perto as transformações da Fórmula 1 há quase duas décadas (Crédito: Divulgação)

A história de Mariana Becker com automobilismo começou bem cedo, quando a jornalista competiu como navegadora e pilota no Rally dos Sertões nos anos de 2000, 2002 e 2003. Foi, porém, há quase 20 anos, em 2007, que Mari se tornou uma das pioneiras a cobrir Fórmula 1 na TV Globo.

Segundo a jornalista, entrar nesse universo como uma das primeiras vozes femininas na cobertura da categoria trouxe desafios. Afinal, tratava-se de um esporte ainda predominantemente masculino, o que exigiu que ela conquistasse seu espaço na cobertura do campeonato.

“Naquela época era um esporte feito por homens, contado por homens, majoritariamente para homens. Era um espaço que eu tive que conquistar, porque a televisão brasileira ainda não tinha tido uma mulher como o principal repórter da Fórmula 1 na TV, eu tive que fazer com que os meus entrevistados se acostumassem comigo, com os que os meus colegas se acostumassem comigo e com que o público também se acostumasse comigo.”, afirma Mariana Becker, em entrevista ao Meio & Mensagem.

A jornalista explica que enfrentou momentos difíceis, mas com o tempo foi aprendendo a lidar com esses obstáculos, entendendo que eles não eram tão importantes quanto ao trabalho que ela estava designada a cumprir.

“São vários momentos que vão se repetindo e se repetindo e se repetindo e que você tem que ter muita resiliência para diminuir a importância deles. Com o tempo você começa a saber nivelar a importância daqueles obstáculos e ao longo dos anos eles acabam ficando cada vez menores. Até eu aprender a lidar com isso e ter a resiliência suficiente para continuar fazendo o que eu estava fazendo.”, explica.

Além disso, Becker relembra que no início da sua cobertura ao esporte, o ambiente permitia comentários extremamente machistas. Segundo a jornalista pessoas chegavam a dizer no microfone que “lugar de mulher era na cozinha”. Hoje, no entanto, ela observa que, embora o preconceito possa persistir no pensamento de alguns, as leis e regras do esporte não comportam mais esse comportamento.

Para Mariana, a presença de mais mulheres na cobertura esportiva tem transformado a forma de contar histórias e apresentar o esporte. Segundo a jornalista, elas conseguem apoiar umas às outras, tornando o ambiente mais acolhedor e contribuindo para reduzir o preconceito que marcou esse espaço por tantos anos.

“A forma de contar da mulher leva em consideração que tem outras mulheres como elas chegando e que precisam, talvez, de uma explicação um pouco mais claras.”, relata.

Muito além da técnica

A jornalista explica que mesmo após tantos anos acompanhando a categoria, o que lhe permitiu conquistar públicos de diferentes gerações foi a capacidade de unir dois aspectos: o lado técnico e o humano.

Para Mariana, o papel de quem trabalha com automobilismo é produzir conteúdo pensando tanto em quem acompanha a categoria há anos quanto em quem nunca assistiu a uma corrida, porque é a dimensão humana das histórias que aproxima todos esses públicos.

“Você tem que escrever para pessoa que nunca vê ou para pessoa que tem um nível social e econômico totalmente diferente, porque o que une todas essas pessoas é a parte humana. Ela pode ser assim mais intensa ou menos em várias coisas, mas todo mundo tem igual. Eu posso falar da tecnologia híbrida, mas se eu disser que aquela eletricidade ali, é a mesma eletricidade de casa, eu tenho que fazer referências a ela, para que fique interessante.”, explica.

Fórmula 1 para além das pistas

A evolução no perfil da audiência da Fórmula 1 acompanha o esforço da categoria em tornar o esporte mais acessível a diferentes gerações. Em 2019, em parceria com a Netflix a F1 lançava a série Drive to Survive, que mostra os bastidores das equipes, histórias e rivalidade entre os pilotos.

Para Mariana, essa transformação vai além do lançamento da série, ela é impulsionada pelas diferentes formas de produzir conteúdo sobre a categoria nas redes sociais, seja abordando a vida pessoal dos pilotos, mostrando os bastidores das corridas ou explorando temas que fogem da cobertura tradicional.

“Hoje a Fórmula 1 tem uma transmissão digital. Você vê as pessoas se informando através de diversas mídias. Os torcedores vão desde mulher, aos jovens, pessoal dos 40 para cima, está tudo muito mais diversificado, o que é ótimo e isso graças a uma porção de acontecimentos no mundo digital.”, comenta.

As redes sociais passaram a funcionar como uma ferramenta de aproximação, mas também trouxeram novos desafios, principalmente em relação aos impactos psicológicos causados pela agressividade do ambiente digital.

Mariana explica que, atualmente o público valoriza conteúdos mais orgânicos e menos produzidos. No entanto, por mais que tais conteúdos agreguem na comunicação, é fundamental estabelecer limites para promover um ambiente digital mais saudável.

“Cada vez mais se valoriza uma mídia social mais orgânica e menos produzida. É inquestionável o que as mídias sociais agregam na comunicação de um esporte. Mas, ao mesmo tempo, é inquestionável que isso tem que ser regularizado. As redes possuem um poder muito grande, tanto para o bem quanto para o mal. A intensidade é a mesma para os dois lados.”, destaca.

Mari relembra que participou de uma campanha realizada pela FIA (Federação Internacional de Automobilismo), em parceria com o Sistema Europeu de Comunicação para conscientizar o público sobre o combate ao assédio e à agressividade nas redes sociais.

O futuro da categoria no Brasil

Para Mariana Becker, o futuro da Fórmula 1 depende da capacidade de evoluir sem renunciar à identidade que transformou a categoria em uma referência no automobilismo. A jornalista avalia que a modalidade tem acompanhado as mudanças da sociedade ao investir em novas tecnologias, como os motores híbridos, e em iniciativas alinhadas às discussões atuais, especialmente em relação à sustentabilidade.

“A Fórmula 1 está trabalhando para não ficar totalmente fora do seu tempo e fora das preocupações atuais e tem investido em um motor híbrido. Algo faça com que eles se mantenham no ápice do automobilismo em termos de tecnologia, audácia e de habilidade. Ao mesmo tempo eles mostram que não estão completamente perdidos no tempo, queimando combustível fóssil como se não houvesse amanhã.”, explica.

No entanto, esse processo de transformação precisa respeitar a essência do esporte. Na avaliação da jornalista, tornar a Fórmula 1 mais acessível, comercial e conectada às novas formas de consumo não pode comprometer aquilo que faz da categoria um espetáculo único: a competição, a velocidade e a autenticidade.

“Todas as pequenas pecinhas vão sendo encaixadas para fazer com que a Fórmula 1 seja mais comercializável, mais fácil de entender e mais fácil de acompanhar. Mas ela ainda deve falar nossa língua, com as nossas preocupações, nossos objetivos e ao mesmo tempo não perca o que ela tem de mais bonito: a velocidade no seu estado mais puro.”, declara.

Esse processo de renovação ganha ainda mais força no Brasil com a chegada de Gabriel Bortoleto ao grid. Para Mariana, depois de anos sem um representante brasileiro na categoria desde a saída de Felipe Massa, o piloto resgata a identificação do público com a Fórmula 1 e pode impulsionar uma nova geração de fãs.

“Com o Gabriel chegando, a gente tem essa identificação direta com ele. Ele é o cara que representa a gente, o cara que fala a nossa língua, o cara que poderia ser o meu amigo agora está lá andando na Fórmula 1 e é amigo do Max Verstappen.”, explica.

Para Becker, a presença de Bortoleto vai além da torcida por resultados. “É essencial para gente retomar o que é nosso, a participação do Gabriel é como algo legítimo para os brasileiros. Diz mais ou menos assim, eu tenho direito de estar aqui dentro sim, porque olha ali o meu piloto.”, reforça.