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Por que o varejo precisa sair do modo teste

Escalar deixou de ser uma opção técnica para se tornar uma urgência competitiva

Patrícia Fischer

CRO da Zoop 13 de janeiro de 2026 - 11h50

Às vésperas da NRF 2026, já era possível antecipar alguns dos temas que dominariam a agenda. Mas o primeiro dia do evento trouxe um recado mais incômodo do que muitos gostariam de admitir: o varejo global entrou em uma fase em que não decidir também é uma escolha — e, quase sempre, a pior delas.

As principais palestras não giraram em torno de lançamentos pontuais ou tendências “para observar”. O que se viu foi um deslocamento claro de discurso. Inteligência artificial, pagamentos, ecossistema de varejo, experiência e dados deixaram de ser tratados como vetores de inovação incremental e passaram a ser discutidos como infraestrutura competitiva.

O primeiro dia da NRF 2026 não foi inspiracional no sentido confortável. Ele foi pragmático, direto e, em vários momentos, incômodo. A mensagem implícita foi clara: o tempo da curiosidade acabou; agora é tempo de responsabilidade estratégica.

Cliente como peça central do ecossistema

Com grande presença brasileira na plateia, Gui Serrano, vice-presidente assistente de estratégia corporativa e desenvolvimento da CVS Health, e Frederico Trajano, CEO da Magalu, falaram sobre a construção de um ecossistema de negócios que coloca o cliente como a peça central de todas as decisões.

Os casos da CVS Health e do Magalu ilustram como essa teoria se aplica em diferentes contextos, mas com o mesmo propósito de simplificar a jornada do usuário. A CVS transformou suas farmácias em um ecossistema de saúde completa, utilizando a confiança no farmacêutico como porta de entrada para planos de saúde e cuidados preventivos.

Já o Magalu evoluiu de uma loja de bens duráveis para uma plataforma multissetorial, utilizando a tecnologia e a humanização da marca (através da personagem Lu) para integrar aquisições digitais e manter uma forte presença física que hoje serve como hub de mídia e logística.

IA como plataforma: quem controla a interface controla a decisão

O painel com Google e Walmart escancarou uma mudança que muitos ainda subestimam. A IA não está apenas melhorando a experiência digital; ela está se posicionando como nova camada de plataforma do comércio. Discovery, decisão e transação começam a se fundir em fluxos conversacionais contínuos.

O anúncio do Universal Commerce Protocol (UCP) não é um detalhe técnico. Ele sinaliza uma disputa silenciosa por controle da jornada. Quando a compra deixa de começar em uma vitrine ou site e passa a nascer em uma conversa mediada por IA, o poder se desloca para quem controla a interface, os dados e as regras de execução.

Os números apresentados pelo Google, com crescimento de 11x no volume de tokens processados via APIs em apenas um ano, deixam claro que isso já não é laboratório. O Walmart, ao mostrar agentes operando do lado do cliente, do associate e do seller, reforçou que essa transformação é transversal. Não se trata de um novo canal, mas de uma reorganização da operação em torno de agentes.

Pagamentos e confiança: onde a estratégia encontra o caixa

O painel Profit starts at checkout deixou claro que o checkout deixou de ser um ponto de conversão e passou a ser um ponto de margem, controle e diferenciação. Em um cenário de pressão macroeconômica, decisões como roteamento inteligente, escolha de trilhos e antifraude baseada em contexto não são otimização fina, são sobrevivência financeira.

Reduções de custo de até 20% via roteamento e diferenças de até 60% entre adquirência local e cross-border recolocam pagamentos no centro da estratégia. O que antes era backoffice agora define viabilidade de modelos de negócio, expansão internacional e experiências premium.

Em jornadas mediadas por IA, a confiança deixa de ser explícita e passa a ser invisível. Identidade, proteção ao comprador e governança da transação precisam funcionar sem interromper o fluxo. Quando isso falha, a experiência inteira colapsa.

Encerro este primeiro dia de NRF 2026 com a convicção de que, prontos ou não, o mercado seguirá avançando tecnologicamente, e caberá a cada empresa decidir se vai acompanhar esse movimento ou apenas reagir a ele.