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O futuro é agora: 6 lições práticas das novas tecnologias para o varejo

Mais do que adotar novas aplicações, desafio é fazer escolhas estratégicas claras, alinhar áreas isoladas e acelerar os processos

Marcelo Arantes

27 de janeiro de 2026 - 14h32

Todos os anos, a NRF apresenta novos temas e tendências do varejo mundial, muitas vezes distribuídos entre diferentes frentes e iniciativas. Em alguns casos, essas abordagens são mais conceituais e exigem uma tradução cuidadosa para a prática. Em 2026, porém, chamou atenção uma mudança relevante: os debates evidenciaram um avanço consistente na forma como a Inteligência Artificial vem sendo incorporada ao varejo.

Como era esperado, a IA esteve no centro das discussões, especialmente no que diz respeito aos seus agentes e ao seu potencial para reduzir custos, simplificar processos, melhorar a experiência do cliente e conectar os diversos elos da cadeia. A diferença, desta vez, não esteve no “o quê”, mas no “como”.

O tema demonstrou maior maturidade. A Inteligência Artificial deixou de ser tratada apenas como promessa ou experimento e passou a ocupar um papel estrutural no ecossistema do varejo. Isso ficou particularmente evidente em sua aplicação em áreas historicamente complexas e críticas, como a cadeia de suprimentos, um sinal claro de que a tecnologia saiu definitivamente do campo do discurso.

Também ficou evidente que a discussão não é sobre substituir pessoas por tecnologia, mas sobre a interação complementar entre humanos e IA, com cada parte potencializando aquilo que faz melhor.

A partir dessas observações, identifiquei seis pontos que merecem atenção e aceleração ao longo deste ano.

1. O futuro é agora

O futuro é agora não apenas porque a tecnologia está disponível, mas porque o varejo começa a ser pressionado a decidir onde, de fato, faz sentido aplicá-la. A NRF 2026 deixou claro que não será possível automatizar tudo ao mesmo tempo e que a maturidade está muito mais ligada à capacidade de escolher, priorizar e governar iniciativas do que à quantidade de projetos de IA em andamento.

2. Dados em tempo real mudam a lógica de decisão

Os dados estão sendo consumidos, analisados e utilizados para decisões em tempo real. Estamos deixando de falar em D-1 (o dia de ontem) e passando a operar em H-1 (a última hora). Essa mudança altera profundamente a dinâmica de planejamento, resposta e correção de rota, exigindo organizações mais integradas, menos hierarquizadas e capazes de agir com velocidade.

3. Equilíbrio entre humano e tecnologia

O elemento humano nunca vai perder seu espaço no varejo. Pelo contrário: à medida que a tecnologia assume tarefas repetitivas, analíticas e operacionais, o papel das pessoas se desloca para decisão, interpretação, relacionamento e gestão de exceções. A NRF reforçou que a vantagem competitiva estará na qualidade dessa interação e não na substituição pura e simples.

4. Reinvenção da loja física.

Está cada vez mais claro que a loja física não só não perde relevância, como ganha novas funções. Além de centro de experiência e relacionamento com o cliente, ela passa a ocupar um papel mais integrado no ecossistema do varejo, conectando estoque, serviços e canais. A loja deixa de ser um ponto isolado e passa a operar como parte ativa de uma rede.

5. Omnicanalidade como requisito básico.

A omnicanalidade deixa de ser diferencial e passa a ser condição mínima para competir. Mas o evento deixou claro que ela só se sustenta quando sai do discurso e se materializa na operação, nos processos e na forma como as áreas se organizam. Integrar canais é, antes de tudo, integrar decisões.

6. Monetização do fluxo ganha ainda mais importância

Em um ambiente de margens cada vez mais pressionadas, monetizar o fluxo torna-se fundamental. Retail Media e novos modelos de receita ganham relevância, mas exigem uma base sólida de dados, consistência operacional e clareza estratégica. Sem isso, novas frentes de monetização tendem a aumentar a complexidade sem gerar retorno real.

Assim, acredito que a NRF 2026 cumpriu bem sua intenção de mostrar que a Inteligência Artificial deixou de ser um tema inspiracional e passou a funcionar como um verdadeiro teste de maturidade para o varejo. Não porque ela esteja “no centro” de tudo, mas porque escancara fragilidades operacionais, culturais e organizacionais que já existiam — especialmente quando o discurso encontra a realidade da execução.

Mais do que adotar novas tecnologias, o desafio é fazer escolhas estratégicas claras, alinhar áreas historicamente isoladas e acelerar, pois o futuro é agora.