A luz e a sombra do America by Design
O que está por trás do maior programa de design público já anunciado
Existe uma frase que eu repito com certa frequência: quando o produto funciona, vira propaganda. Isso porque a experiência conta uma história melhor do que qualquer discurso.
Quando um serviço público funciona bem, gruda na memória, vira capital político e cria um tipo de poder que não grita, apenas funciona. Em determinados contextos essa pode ser uma verdade inconveniente do design.
É por isso que o America by Design, maior programa de design público já visto é tão interessante ao mesmo tempo que perigoso.
A promessa é boa: redesenhar o ecossistema digital do governo americano com seus milhares de sites e plataformas de serviços físicos e digitais como quem finalmente aceita que serviço público também é experiência — e que experiência não é perfumaria. É dignidade. É tempo devolvido. É fricção eliminada.
Deixar de aceitar o “feio porque é público”, o “confuso porque é governo”, o “legado porque sempre foi assim”. É o tipo de ambição que qualquer pessoa que trabalha com design pensa: era pra ser assim em qualquer país, faz tempo….
Por outro lado, é impossível não refletir mais profundamente sobre os riscos do que isso significa na “era Trump”: serviço público que funciona cria confiança. Confiança vira memória. Memória vira legado.
Design, aqui, não é somente ferramenta de transformação social. É ferramenta de permanência, de poder e alavanca política.
O argumento oficial que consta na ordem executiva é perfeito: os serviços digitais do governo ficaram feios, confusos, caros de manter; o cidadão paga com tempo perdido; está na hora de “tapar os buracos digitais”. Bonito. Literalmente bonito — porque o texto deixa claro: não é apenas usabilidade, é estética também. “Usável e bonito”.
Isso diz muito sobre o projeto. Não basta funcionar. Precisa “parecer” que funciona. Precisa transmitir qualidade em primeira mão, criar a sensação de Estado competente antes mesmo do clique.
Aqui mora o lado luz do programa: Interfaces decentes melhoram a vida das pessoas. É o básico. E quando o básico funciona, ele vira extraordinário.
Agora, a parte desconfortável — e a mais interessante. A sombra é tão intensa quanto a luz. O design não é neutro na ” era Trump”. Design cria símbolos, reforça tom de voz, escolhe o que aparece primeiro — e o que some no rodapé. Dá palco para ideais nem sempre iluminados.
Examinar os primeiros desdobramentos do ND studios ( National Design Studio https://ndstudio.gov/ ) é instrutivo. O site Whitehouse.gov virou vitrine do que acontece quando você une direção visual forte + narrativa centralizada: você cria uma sensação imediata de “qualidade” e “ordem”. Examinando um pouco mais, a mensagem vai se consolidando. É menos “governo” e mais persona. Menos Estado e mais narrativa.
Outro exemplo ainda mais explícito é o TrumpRx.gov.
O site foi lançado no começo de fevereiro de 2026 como uma plataforma para direcionar cidadãos a preços reduzidos em medicamentos, com uma narrativa de “economia imediata” e “menor preço do mundo”.
Do ponto de vista de design: refinado, simples, direto, com promessa clara.
Do ponto de vista político: marca pessoal colada em política pública. Não é “HealthRx”. Não é “USRx”. É TrumpRx. Isso muda tudo — porque revela o mecanismo: o serviço melhora, a marca capitaliza.
Como designer é difícil não pensar que a história já contou esse filme antes: como estética pode normalizar ideologia. Sem moralismo, esse é um dilema real.
De um lado, a chance de mexer numa escala que quase ninguém mexe — reduzir sofrimento burocrático de milhões. Do outro, ser parte da engrenagem que torna um projeto de poder mais palatável, mais “bonito”, mais memorável.
A pergunta não é se o “design pode mudar o mundo?”, mas mudar o mundo pra quem? — sob qual narrativa? “Fazer o bem” via serviço público é real e “fortalecer um legado político” via experiência também. Os dois coexistem. A luz e a sombra no mesmo grid.
Se eu fosse resumir em uma linha:
America by Design é a prova de que design é uma tecnologia de confiança — e confiança é moeda política.