Cadê o lucro da sua influência?
A história está cheia de empresas que escalaram rápido, queimaram caixa e descobriram que não tinham um modelo sólido por trás
O marketing de influência deixou de ser um experimento periférico e passou a ocupar o centro das estratégias de lançamento e crescimento de muitas marcas. Budgets migraram, estruturas foram criadas, times foram montados. Em 2026, ninguém mais discute se creators são relevantes ou não. A discussão agora é outra: como transformar essa relevância em uma operação eficiente. Porque a influência, hoje, movimenta muito dinheiro, mas gera pouca escala e acionáveis.
Segundo o Interactive Advertising Bureau, o investimento em creators cresceu mais rápido do que praticamente qualquer outro canal nos últimos anos, chegando a mais de US$ 37 bilhões em 2025. Ainda assim, quando olhamos para dentro das empresas, é comum encontrar operações pouco integradas, sem governança clara, sem previsibilidade e sem conexão real com indicadores estratégicos.
Essa é uma dinâmica conhecida por quem vive o mundo das startups. Crescer sem estrutura é fácil, mas a dificuldade está em sustentar esse crescimento.
A história está cheia de empresas que escalaram rápido, queimaram caixa, ganharam visibilidade e depois, descobriram que não tinham um modelo sólido por trás. Com o mercado da influência, o roteiro vem sendo muito parecido.
Durante muito tempo, a Creator Economy operou no que chamo de “MVP Eterno”. Testava-se, ajustava-se, celebrava-se o que dava certo e esquecia-se rápido o que dava errado. Pouco se documentava. Pouco se replicava e escalava. Cada novo ciclo parecia começar do zero, mesmo quando os investimentos aumentavam e as expectativas se tornavam mais altas.
Hoje, muitas lideranças já percebem o descompasso. Sabem quanto investem em creators, mas não sabem exatamente quanto retornam. Têm volume, mas não têm margem. Têm alcance, mas não têm previsibilidade. Têm casos isolados, mas não têm padrão. E sem padrão, não existe escala. Influência, quando não é tratada com a devida diligência, vira custo variável.
Negócios sólidos são construídos sobre processos replicáveis, métricas estáveis e decisões orientadas por histórico. Isso vale para produto, vendas, marketing e, cada vez mais, para creators. Não é coincidência que empresas mais maduras já integrem influência a CRM, mídia, BI e planejamento financeiro. Elas não “fazem campanhas”. Elas operam canais com fases de maturação, otimização e escala.
Quando essa estrutura não existe, o efeito é rapidamente perceptível na forma como as parcerias são construídas. Predominam contratos pontuais, negociações fragmentadas, roteiros engessados e pouca visão de longo prazo. O creator entra como fornecedor, não como parceiro estratégico. O resultado é o baixo valor de insights, pouca transferência de aprendizado e alta dependência de volume. De novo: muita movimentação, pouco valor estrutural.
Transformar influência em negócio passa por decisões que nem sempre são confortáveis: investir em mensuração, em governança, em contratos mais maduros e bem definidos com o que é um resultado bom e ruim, com ciclos de avaliação e em integração com dados de negócio. Dá mais trabalho no curto prazo, exige mudança cultural e disciplina operacional, mas é isso que cria vantagem competitiva no médio e no longo prazo.
O mercado brasileiro começa a andar nessa direção. A informalidade vem perdendo espaço. A cobrança por previsibilidade aumenta. Conselhos, investidores e lideranças passam a exigir respostas mais consistentes e databased. Narrativas e criativos bonitos já não bastam. Nesse cenário, a discussão sobre a rentabilidade real da influência deixa de ser retórica e passa a ocupar o centro das decisões estratégicas.
Se a resposta depende de sorte, timing ou exceção, há um problema a ser corrigido. Se ela aparece nos relatórios, nas projeções e nas decisões, há um negócio sendo construído. Influência não precisa ser aposta. Pode ser ativo, desde que seja tratada como tal.
Mas só para quem decide fazer isso de forma consistente.