Conservador é quem conserva
Mais que o antropocentrismo, o biocentrismo deveria orientar a humanidade e o trabalho de longo prazo das marcas
Na semana passada, eu participei de um painel e ouvi uma frase que não saiu da minha cabeça. Paul Watson, fundador do Sea Shepherd e um dos fundadores do Greenpeace, disse o seguinte: “Conservador não deveria ser um termo sequestrado por partidos políticos. Conservador é quem cuida, quem conserva. Então, eu mesmo me considero um conservador. Da natureza.”
Parei. Fiquei repetindo a frase mentalmente como quem toma um tapa na cara tão óbvio que dá raiva de não ter percebido antes. Dei uma pesquisada rápida no Google e vi que o termo “conservador”, em sentido político, nasceu em 1818, quando o escritor francês François-René de Chateaubriand fundou um periódico chamado Le Conservateur para defender a restauração da monarquia, após a Revolução Francesa. Nasceu, portanto, para proteger um regime. Não a vida. Nem o planeta.
Mas o que Paul faz com a palavra é interessante exatamente por isso. E, nessa visão que ele traz, o que deveríamos estar conservando é exatamente o que vai além de nós: a natureza.
Paul falou sobre biocentrismo, a ideia de que o ser humano não é o centro da vida no planeta, mas, sim, uma das inúmeras espécies com igual importância. O oposto do antropocentrismo, que colocou o humano no topo de tudo e o planeta apenas como cenário que existe para nos servir. O que, segundo ele, está na raiz de boa parte dos problemas que hoje tentamos resolver no mundo e nos fundamentos de provavelmente mais de 90% das religiões globais (mas isso é assunto para outro texto).
O biocentrismo é interessante não somente pela questão ambiental, mas porque pode ser aplicado à estratégia de marca. Porque uma marca com visão biocêntrica não pergunta apenas “O que o consumidor quer?” mas “Em que mundo esse consumidor vive, o que está acontecendo com esse mundo e o que isso significa para o que a gente faz?”
É uma diferença sutil na pergunta e enorme na eficácia. Porque quando você muda a pergunta, muda o briefing. E quando muda o briefing, muda o que vai para a rua. Simples assim.
Na prática, isso separaria as marcas que “fazem” campanha de propósito das marcas que TÊM propósito. As primeiras identificam uma causa, encaixam no calendário e vão ao ar. Pronto. Estas últimas constroem a partir de uma visão de mundo que inclui mais do que o próprio faturamento e o próprio consumidor. Não é romantismo, é uma estratégia que garante relevância quando o contexto muda. E o contexto, meus amigos, ele muda o tempo todo.
Em 1994, John Elkington criou o Triple Bottom Line: medir resultado em lucro, pessoas e planeta ao mesmo tempo. Estudei isso na faculdade, porque essa visão virou uma linguagem universal. No entanto, em 2018, o próprio Elkington declarou o modelo criado por ele como um fracasso. Não porque a ideia era ruim, mas porque a maioria das
empresas colocou o planeta na balança, mas continuou pesando o dedo apenas no lucro.
Mas conservador, como Paul citou, é quem conserva. E talvez a pergunta que a nossa indústria precise fazer com mais frequência não seja “O que podemos vender?” mas “O que vale conservarmos no mundo, na natureza e na sociedade para que nossos produtos continuem existindo e fazendo sentido?” Pode até parecer, mas esse não é um texto sobre ativismo. Eu juro. É um chamamento para que mais profissionais de marca trabalhem com visão de longo prazo.