Opinião

Robôs automatizam tarefas, agências capacitam humanos

Talentos assumem papel de consultores estratégicos diante da transformação do mercado; movimento exige revisão de cultura e capacitação em tecnologia

Everton Vasconcelos

Diretor de Capacitação e Gestão da Abracom e sócio-diretor de Atendimento e Conteúdo da CDI Comunicação 2 de setembro de 2026 - 14h00

O mercado de comunicação corporativa transformou-se radicalmente na última década. No entanto, o maior catalisador dessa mudança não foi o avanço dos algoritmos ou das ferramentas colaborativas, mas sim a profunda reconfiguração do nosso maior ativo: os talentos. Hoje, agências e clientes orbitam em um ecossistema multidisciplinar, composto por profissionais de variadas formações nem sempre ligadas diretamente à Comunicação e ao Marketing. Essa pluralidade, se por um lado desafia o alinhamento de expectativas e a construção de briefings, por outro enriquece e traz grandes oportunidades ligadas ao gerenciamento de reputação, crises, influência digital, engajamento dos colaboradores e a mensuração de KPIs atrelados diretamente ao negócio.

Nesse cenário, deixamos definitivamente o papel de assessores operacionais para assumirmos a posição de consultores estratégicos. Contudo, essa transição exige uma robustez técnica e financeira que nem todas as agências possuem capacidade para fazer ou acelerar de forma segura. Há quase 25 anos, a Abracom tem trabalhado junto às associadas para construir programas que encurtem esses caminhos. Um exemplo prático é a série “Educa”, lançada em 2022 e voltada à capacitação de profissionais que atuam no mercado e estudantes. Ao promover a troca de conhecimento feita entre os melhores especialistas das próprias agências para profissionais que atuam na concorrência, o projeto prova que o fortalecimento do ecossistema do nosso setor depende de um movimento colaborativo que seria impensável décadas atrás.

O desapego a posturas egóicas tornou-se indispensável diante de gaps ligados não apenas a um conhecimento técnico prévio, mas ao engajamento da necessidade contínua de aprimoramento entre consultores, designers, editores e analistas de dados. Para ratificar essa transformação, precisamos encarar o paradoxo da Inteligência Artificial. Estudos de consultorias globais como a McKinsey indicam que a IA generativa pode automatizar até 70% das tarefas rotineiras de escrita e análise de dados. Longe de ser uma ameaça, esse dado é o argumento definitivo para a urgência da capacitação pragmática: o valor do profissional migrou da execução para a curadoria.

O diferencial competitivo não está em quem opera a ferramenta, mas em quem possui repertório analítico e ético para garantir a autenticidade e a conexão humana. Capacitar, portanto, não é ensinar a usar um software, mas desenvolver proatividade, autonomia e pensamento crítico — habilidades intangíveis que nenhuma máquina replica.

A “coopetição” demonstrada na série “Abracom Educa” aponta o caminho. Em cinco anos, realizamos 60 encontros divididos em 12 módulos sobre os três principais desafios apontados, por meio de uma pesquisa organizada nacionalmente, pelas associadas com foco em capacitação (Conteúdo, ESG e Comunicação Digital – especialmente IA, dados e KPIs). Entre os 30 instrutores e moderadores que habilitaram os mais de 300 alunos participantes nas trilhas de educação e master classes, tivemos o envolvimento direto de quase 100 agências de todo o Brasil que correspondem a mais de 60% do volume de negócios de Comunicação Corporativa do Brasil.

Ao investirmos em uma formação contínua que equilibra dados e humanidade, transformamos equipes multifacetadas em solucionadores de problemas complexos. A sobrevivência das agências depende de transformar o potencial tecnológico em inteligência essencialmente humana e estratégica.