Opinião

Remédio e veneno no mesmo frasco

São muitos os casos em que serviços são criados e, depois, recriados para se ajustar aos efeitos da própria proposta inicial

Gustavo Luveira

Sócio do Bona Casa de Música 1 de setembro de 2026 - 14h00

Agora o LinkedIn resolveu colocar um botão novo entre “salvar” e “denunciar publicação”, o “parece lixo de IA”. Ao clicar, o post some do seu feed e vira dado de treino para o sistema de detecção da própria plataforma. Uma categoria só para abrigar a suspeita de origem, um julgamento de estilo empacotado como função técnica.

Sócrates já discutia isso no diálogo Fedro, atacando a escrita, a tecnologia mais inofensiva que existe hoje. Pra ele, escrever destrói a memória: deixa a pessoa parecer que sabe sem ter feito o trabalho de guardar o saber dentro de si. Os gregos chamavam essa ambiguidade de pharmakon, a mesma palavra usada para remédio e para veneno, porque a diferença entre os dois sempre esteve na dose e em quem controlava a receita. Toda tecnologia que externaliza uma capacidade humana nasce grávida do próprio antídoto: barateia a aparência da competência e, no mesmo movimento, cria mercado para quem quer provar que a competência de verdade ainda existe em algum lugar.

O LinkedIn tem motivo para se preocupar com isso. Estimativas do serviço Pangram apontam que 41% dos posts longos e 30% dos posts curtos na plataforma provavelmente foram gerados por IA. Só que o próprio Pangram admite um ponto cego: em texto que um humano escreveu e só pediu pra IA polir, a acurácia do detector cai para 73%, bem abaixo dos mais de 99% que alcança em texto puramente gerado por máquina. E pesquisas independentes sobre detectores de IA em geral mostram viés recorrente contra quem escreve em inglês não nativo, chegando a marcar mais da metade de redações de não nativos como geradas por IA. O tribunal que condena o texto por parecer robô erra bastante quando o réu escreveu numa segunda língua, brasileiro publicando em inglês incluso.

E o próprio LinkedIn já passou pelas duas pontas do problema. Meses atrás, lançou dentro da caixa de escrever um botão de reescrita automática completa. Agora recua, substituindo aquela ferramenta por uma versão que só corrige gramática, alegando que quer preservar a voz dos autores, e testa um aviso privado no painel do criador quando o texto soa inautêntico. A mesma empresa deu a caneta, viu o estrago, e agora vende o antídoto embutido no próprio produto que criou o problema. A crise e a cura moram no mesmo endereço e pagam o mesmo aluguel.

O padrão se repete fora da escrita com uma regularidade quase cômica. Rede social vendeu conexão, azedou em ansiedade e solidão, e hoje lucra de novo vendendo detox digital e aplicativo que trava o próprio aplicativo. A indústria alimentícia industrializou o processamento para entregar praticidade barata, e décadas depois vende de volta, a preço de boutique, o rótulo orgânico, sem conservantes, como antigamente. Cada ciclo desses tem o mesmo formato: o problema e a solução saem da mesma fábrica.

Com a escrita gerada por IA, o ciclo já deu um passo adiante. Existe hoje uma indústria de “humanizadores” de texto, como o Undetectable AI, vendida com a promessa de enganar detectores como o próprio Pangram. Na prática funciona mal, testes independentes mostram o Pangram pegando mais de 90% do texto “humanizado” por essas ferramentas, mas isso não impede o produto de ser vendido, comprado e usado. O antídoto contra o veneno já tem antídoto à venda, funcionando ou não. Do lado das marcas, o mesmo movimento chegou ao design. A Eventbrite trocou seu logo minimalista por uma identidade fluida, desenhada à mão, parte de uma onda que abandona a perfeição de propósito porque a perfeição virou sinônimo de imagem gerada por IA.

Nesse jogo, o lado que gera e o lado que detecta, o polimento e a imperfeição encomendada, estão todos à venda, empacotados, otimizados e disponíveis no cartão de crédito. O que continua fora desse comércio é o tanto de tempo, repertório e decisões acumuladas que formam um jeito de ver o mundo que só uma pessoa específica tem. Isso ninguém terceiriza, de nenhum dos dois lados do balcão, porque não existe atalho para ter vivido alguma coisa.

Este texto também pode virar treino para algum modelo, pode ser reescrito por um humanizador, pode disparar um alerta de “parece lixo de IA” em algum feed distraído. Tudo bem, faz parte. O mercado vai continuar vendendo os dois lados da mesma moeda, sempre, em ciclos cada vez mais curtos. O que sobra fora desse comércio todo é simples de nomear e difícil de fingir: o tanto de vida real que você carimbou em cada frase antes de publicar.