Por que os times americanos são tão caros?
Regras financeiras que balizam o mercado dos EUA são totalmente diferentes de outras regiões, como a Europa
Há duas semanas, o Los Angeles Lakers foi vendido mais uma vez. Bob Iger, ex-CEO da Disney, e o investidor Joshua Kushner concordaram em comprar a franquia por US$ 12,5 bilhões, apenas cerca de um ano depois de Mark Walter ter adquirido o controle do time por uma avaliação de US$ 10 bilhões. Se o negócio for aprovado pela NBA, será a maior transação envolvendo uma equipe esportiva americana.
Os preços das franquias da NFL (futebol americano) e da NBA (basquete) estão entre os mais altos do mundo em qualquer esporte, como provou a venda dos Lakers. Mas nada causa tanta surpresa quanto os altos valores de mercado das franquias de futebol dos Estados Unidos (a Major League Soccer – MLS).
Segundo a Forbes, algumas franquias da MLS, uma liga com apenas 30 anos de existência e ainda distante das principais europeias em audiência, receita e relevância esportiva mundial, já valem mais do que importantes clubes europeus. O Atlanta United começou a jogar em 2017 e vale aproximadamente US$ 1 bilhão. O Los Angeles FC estreou oficialmente em 2018 e já vale US$ 1,08 bilhão. O Inter Miami disputou sua primeira partida oficial em 2020 e vale US$ 1,35 bilhão.
Comparados com esses preços americanos, alguns clubes centenários em relevantes mercados europeus parecem estar “em promoção”. O português Benfica vale “apenas” US$ 960 milhões, a Roma só US$ 940 milhões, o inglês Everton vale US$ 930 milhões, e o alemão Stuttgart poderia ser comprado pela bagatela de US$ 880 milhões.
A diferença se justifica por dois motivos. O primeiro é o modelo americano. Quando alguém compra uma franquia da MLS, NBA, NFL ou MLB, está comprando um ativo extremamente escasso e protegido. Além de não existir rebaixamento, existem mecanismos para controlar os custos, dividir receitas e preservar o equilíbrio competitivo.
Na Europa é diferente. Um investidor pode comprar um clube tradicional da primeira divisão e, alguns anos depois, vê-lo rebaixado, perdendo dezenas de milhões de dólares em receitas de televisão, patrocínio e bilheteria de uma temporada para a seguinte.
Mas existe outro componente dessa equação que é muito menos conhecido fora dos EUA: o sistema tributário americano torna a compra de uma franquia esportiva especialmente atraente.
Pela legislação tributária americana, os ativos intangíveis adquiridos com uma franquia esportiva profissional (a franquia, a marca, os contratos de jogadores, o relacionamento com torcedores, os direitos comerciais etc.) podem ser amortizados ao longo de 15 anos.
Na prática, um investidor que desembolse US$ 2 bilhões na compra de uma franquia esportiva que tenha US$ 1,5 bilhão elegíveis para amortização poderia reconhecer cerca de US$ 100 milhões por ano em despesas.
Dependendo da estrutura jurídica e da situação fiscal do proprietário, essa dedução pode reduzir significativamente o imposto devido sobre os resultados da franquia e, em determinadas circunstâncias, sobre outros rendimentos pessoais do proprietário. Uma franquia que (hipoteticamente) não tenha lucro nem prejuízo operacional poderia gerar uma perda tributável de US$ 100 milhões para seu proprietário. Tudo isso enquanto o ativo pode continuar a se valorizar.
Esses dois fatores ajudam a explicar por que as franquias de futebol nos EUA podem valer mais do que clubes muito mais tradicionais em outros países. Fica claro que eles são ativos fundamentalmente diferentes, que oferecem níveis de risco muito diferentes e, por isso, são precificados de formas distintas.
Os donos de franquias da MLS pagam mais caro para participar desse jogo, mas dormem tranquilos sabendo que seus ativos estão inseridos em um sistema desenhado para preservar e aumentar seu valor, que suas receitas anuais são menos dependentes do desempenho esportivo, e que as vantagens fiscais podem fazê-los economizar milhões de dólares por ano. Uma realidade bem diferente da estressante vida dos proprietários de clubes em outros países.
Os investimentos nas franquias da MLS são muito mais racionais do que as manchetes nos fazem acreditar. Na próxima vez que você se surpreender ao ver uma jovem franquia americana avaliada acima de um clube europeu centenário, lembre-se: eles podem até jogar o mesmo esporte, mas as regras financeiras não se assemelham em nada.