Estímulos
Em tempos de IA e tendências, publicidade segue com a missão de provocar e sair do óbvio para criar aquilo possa ser sentido
Eu perdi o olfato logo no início da pandemia.
Desde março de 2020, eu não sinto cheiro algum.
Já fiz todo tipo de treinamento, mas nada.
Tá tudo bem. Eu descobri que é um superpoder, que mais da metade dos cheiros no mundo são ruins e que eu me livrei deles. Me acostumei até que surpreendentemente bem.
Se eu sinto falta dos perfumes e de tudo que cheira bem? Óbvio. Mas, os cheiros que eu queria voltar a sentir mesmo são o da minha filha, da minha mulher e dos meus cachorros. Cheiros que eu guardo na memória a cada fungada inodora que dou em cada um deles.
É algo que vinha pelo nariz direto para o coração, e que tenho aqui comigo, em algum lugar.
Certos estímulos nos impactam e ficam guardados com a gente.
Ironicamente, nosso trabalho na publicidade é criar estímulos.
Algo que emocione, que gere uma reação, um movimento, que seja tão poderoso a ponto de ser inesquecível.
Na nossa bolha publicitária, nós temos o talento, as pessoas e os meios.
Mais do que nunca, é hora de causar, de pensar fora da IA, de não seguir tendências e de esquecer a bullshitagem das boas práticas.
Apostar no novo, no incerto, no que parece errado, no que é difícil, no que cansa pra fazer, no que dá trabalho pra fazer, no que consome o nosso tempo, no que precisa da consulta de um advogado, no que dá medo e alegria de apresentar.
Ideias que nascem de pessoas para realmente provocar alguma coisa em outras pessoas.
Porque talvez seja isso que esteja sendo deixado de lado: não é criar coisas para serem vistas. É criar coisas para serem sentidas.
E, quando o estímulo passa, quando a campanha acaba, quando o assunto deixa de ser novidade, o que sobra? O poder de uma marca.
Eu não sei se um dia vou voltar a sentir o cheiro da minha filha, da minha mulher ou dos meus cachorros.
Mas sei que, de algum jeito, eles ficaram em mim.
É isso que uma boa ideia deveria fazer