Mídia inclusiva não é tendência, é realidade

Para uma mídia realmente inclusiva devemos considerar todas as facetas e camadas de identidade de uma pessoa, como tom de pele, orientação sexual, identidade de gênero, tipo de corpo, etnia, cultura, religião, entre outros

Aquiles Filho

Executivo de mídia no BuzzFeed Brasil 20 de janeiro de 2021 - 8h00

Aquiles Filho (crédito: divulgação)

Você já viu um anúncio, seja ele na TV, internet, rede social ou em qualquer outro meio, e não sentiu nenhuma conexão com o produto ou serviço apresentado? Se a sua resposta for sim, você não está sozinho. Estamos em 2021, e temas como inclusão e representatividade já deveriam ser tratados como algo totalmente normal pela mídia e pelas marcas. Mas acredite, não são!

Como planejar e tornar a mídia mais inclusiva e culturalmente mais relevante para os mais diversos públicos? Certamente, não existe um tutorial para uma transformação do dia para a noite, a única verdade é que as marcas precisam engajar o maior número de pessoas, caso contrário ficarão para trás. A mídia inclusiva não é uma tendência e já deveria, há muito tempo, ser realidade.

Eu, na posição de profissional de mídia, sinto que o grande problema da falta de inclusão e representatividade na mídia se deve ao fato de a TV aberta e a internet liderarem entre os meios que mais recebem esses investimentos. Essa é uma realidade antiga e mesmo agora, com o reflexo da crise causada pela Covid-19, essas duas mídias registraram as menores retrações. Isso sem contar, que a maior parte dos investimentos são destinados a três grandes players: Globo, Facebook e Google.

Os motivos dessa concentração e preferência são óbvios. Esses veículos possuem a capacidade de atingir o maior número de pessoas no Brasil de forma totalmente massiva. O grande problema de toda essa prioridade na compra de anúncios nessas mídias de massa é que eles reforçam estereótipos e elitismos financeiros, deixando de fora pessoas de alto valor para muitos negócios.

Atualmente, a definição de target nas agências de publicidade e departamentos de comunicação contemplam somente dados demográficos, como gênero, idade e classe social. O modelo não considera as relações sociais, tradições e fases da vida das pessoas. Então como reconhecer e conhecer os públicos? Para uma mídia realmente inclusiva devemos considerar todas as facetas e camadas de identidade de uma pessoa, como tom de pele, orientação sexual, identidade de gênero, tipo de corpo, etnia, cultura, religião, status socioeconômicos, entre inúmeros outros. A comunicação precisa ser pensada nas relações interpessoais.

Acredito que um dos caminhos para essa tal de inclusão esteja baseada em três pilares. A primeira delas é o pensamento “Mobile First”, em que todos os projetos realizados para a web sejam dirigidos primeiramente aos dispositivos móveis. De acordo com o estudo Think With Google, o vídeo mobile possui mais retenção. Por exemplo, os anúncios criados para celulares e veiculados no aplicativo do YouTube tem 84% mais probabilidade de reter a atenção do usuário do que uma publicidade similar veiculada na TV.

Reforço o argumento anterior com outro estudo, desta vez do IAB Brasil, ao mostrar que o mobile é o único meio de acesso à internet por segmentos demográficos como por mulheres, indígenas, afrodescendentes, classes D e E, idosos etc. Então, ao pensarmos na criação de conteúdo para a mídia, por que não levar em conta o ponto de vista dos segmentos da sociedade que consomem exclusivamente o mobile?

O segundo ponto teria como foco o conceito de “Audiências Avançadas”, usado pelo Google como referência aos interesses e intenções que não levam em conta parâmetros de idade e gênero. Algumas DSP’s já oferecem segmentações de target baseadas em interesses e intenções e que não levam em conta parâmetros de idade e gênero. O ponto de partida é buscar opiniões e atitudes dos targets em ferramentas de pesquisa e entender a participação por faixa etária, região e, se possível, pelas etnias que compõem o target demográfico.

Por fim e, não menos importante, o caminho para uma mídia mais inclusiva deve centralizar a busca por parceiros especializados. Hoje em dia, existem empresas totalmente qualificadas para levar soluções diferenciadas e capazes de auxiliar a pensar a população além da demografia e estereótipos tradicionais com as agências Silva e Gana ou a AdNetwork Zygon. Com isso, conseguimos dar um grande passo em frente.

É importante que toda essa lógica de segmentação enraíze nos departamentos de planejamento criativo e nos times de criação. E que os profissionais estejam abertos e dispostos a conhecer profundamente sobre o público-alvo, além do padrão, que consome os meios. Essa forma de pensar a comunicação permitirá o surgimento de novas campanhas e anúncios para públicos além do consumidor tradicional. Não tenho dúvidas de que tal atitude será capaz de reverter em campanhas com um CTR maior, awareness e engajamento.

*Aquiles Filho é executivo de contas no BuzzFeed Brasil.