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A inovação não nasce sozinha

A inovação não é linear, mas combinatória, o futuro pertence a quem orquestra ecossistemas

Renata Petrovic

Head de inovação do Bradesco 23 de março de 2026 - 17h35

Frequentemente escutamos sobre a “próxima grande inovação” em eventos de tecnologia: uma nova geração de inteligência artificial, um robô mais avançado ou um progresso no campo da biotecnologia. No painel “Convergência Tecnológica: Identificando a Vantagem”, com Connie Kuang, que lidera a iniciativa de convergência tecnológica do Fórum Econômico Mundial, e Kary Bheemaiah, diretor de tecnologia e inovação da Capgemini Invent, a conversa apresentou uma perspectiva diferente e, na minha visão, mais realista sobre como a inovação realmente acontece.

A discussão destacou que grandes avanços raramente surgem a partir de uma única tecnologia, mas de uma combinação de várias delas. E essa perspectiva não é nova. O biólogo Edward O. Wilson chamou esse fenômeno de “consilience”, termo usado para descrever o momento em que diferentes áreas do conhecimento convergem e produzem algo novo.

Por muito tempo, categorizamos a ciência e a tecnologia em compartimentos diferentes, como engenharia de um lado, biologia de outro e computação em outro. Mas, na prática, os avanços mais transformadores ocorrem quando essas fronteiras se tornam menos rígidas. E já observamos esse movimento em escala crescente.

Nos últimos anos, tecnologias fundamentais como inteligência artificial, robótica, novos materiais, computação de alto desempenho e biologia sintética avançaram quase simultaneamente. Mas, foi quando essas capacidades se conectaram que surgiram soluções que, até pouco tempo, pareciam distantes.

Saí do painel com a sensação de que estamos entrando em um momento no qual a inovação deixa de ser linear e passa a ser cada vez mais combinatória. Diferentes sistemas evoluem em paralelo e passam a acelerar mutuamente. É esse cenário que muitos especialistas têm chamado de era da convergência tecnológica.

O caso dos robôs humanoides ilustra bem essa dinâmica. À primeira vista, eles podem parecer uma inovação repentina. Observados com mais atenção, porém, são resultado de décadas de avanços em sensores, atuadores, mecatrônica, computação embarcada e, mais recentemente, em modelos de inteligência artificial capazes de interpretar o mundo físico.

Algo semelhante acontece com os dispositivos vestíveis voltados à saúde. Tecnologias capazes de monitorar sinais vitais de forma contínua só se tornaram viáveis graças à miniaturização de sensores, ao avanço das baterias e ao desenvolvimento de algoritmos capazes de interpretar grandes volumes de dados biométricos. Em outras palavras, a inovação raramente surge isoladamente — ela emerge da convergência de diferentes avanços.

Se as tecnologias estão se integrando, as empresas também precisam se adaptar a essa nova lógica.

Historicamente, muitas organizações cresceram tentando controlar todas as etapas de suas cadeias produtivas. Em um cenário de convergência tecnológica, no entanto, essa estratégia se torna cada vez mais desafiadora. Nenhuma empresa, por mais influente que seja, consegue dominar simultaneamente áreas como inteligência artificial, biotecnologia, hardware avançado, software e infraestrutura.

Nesse contexto, uma competência estratégica ganha destaque: a capacidade de orquestrar ecossistemas.

Cada vez mais, empresas bem-sucedidas não serão necessariamente aquelas que operam de forma isolada, mas aquelas capazes de integrar parceiros, tecnologias e cadeias de valor distintas para resolver desafios complexos.