Conexão Austin

A era dos humanos híbridos

No SXSW, participantes já chegam acompanhados por suas próprias inteligências artificiais

Andréa Fernandes

Chief Revenue and Growth Officer do Publicis Groupe Brasil 15 de março de 2026 - 18h15

No SXSW, ficou claro que já não participamos de eventos apenas como indivíduos. Cada pessoa chega acompanhada por sua própria inteligência artificial, uma presença silenciosa que registra, organiza e ajuda a conectar ideias em tempo real.

Algo curioso está acontecendo no SXSW.

Já não estamos assistindo palestras sozinhos.

Ao redor do auditório, celulares sendo erguidos, gravações começando, inteligências artificiais passando a ouvir e transcrever cada palavra, organizando ideias e conectando insights entre sessões diferentes.

Eu mesma usei IA para ouvir palestras, registrar pontos-chave, compartilhar reflexões com o meu time e até conectar ideias entre sessões diferentes ao longo do dia.

Cada participante parece chegar com seu próprio time invisível.

Já não participamos apenas como indivíduos.

Estamos ali como sistemas híbridos, humanos acompanhados de suas inteligências artificiais.

Um exemplo curioso é este agente criado para acompanhar sessões do festival e compartilhar insights quase em tempo real.

A inteligência artificial aparece em praticamente todas as conversas do SXSW este ano. Mas algumas das reflexões mais interessantes que ouvi aqui não foram exatamente sobre tecnologia.

Foram sobre como o trabalho está mudando.

Na palestra Will Our Jobs Exist in Five Years?, Michelle Schneider trouxe uma provocação simples e poderosa: talvez estejamos fazendo a pergunta errada.

Em vez de perguntar quais empregos vão desaparecer, deveríamos perguntar quais tarefas dentro deles vão mudar.

Trabalhos são, na prática, conjuntos de tarefas.

A inteligência artificial não elimina necessariamente um trabalho inteiro.

Ela remove partes dele, amplia outras e abre espaço para novas combinações de habilidades.

Isso exige algo que apareceu repetidamente nas conversas do SXSW: curiosidade genuína.

Porque neste momento ninguém tem um mapa claro do que vem pela frente.

Estamos todos, de alguma forma, explorando território novo.

Talvez por isso uma frase de outra palestra tenha ficado ecoando na minha cabeça:

“People who understand people always win.”

Enquanto saía de mais uma sessão no SXSW, fiquei pensando nisso.

Pela primeira vez, estamos aprendendo, debatendo e interpretando o mundo acompanhados por nossas próprias inteligências artificiais.

Mas a pergunta que permanece profundamente humana é outra: o que fazemos com as ideias depois que elas surgem.

Porque a tecnologia agora pode nos ajudar a registrar conversas, transcrever palestras, organizar insights e conectar ideias entre sessões diferentes.

Mas o significado das ideias continua sendo algo que nenhum algoritmo consegue viver por nós.