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A nova escassez do mercado: o valor de ser humano

Na era da inteligência abundante, o valor migra para o que não escala: a experiência humana

Thiago Savoldi

Diretor de Negócios e Experiências da Mercado Livre Arena Pacaembu 16 de março de 2026 - 15h31

Passamos os últimos vinte anos tentando escalar tudo. Conteúdo. Distribuição. Audiência. Produção criativa. Relacionamento com clientes.

A internet transformou alcance em commodity. As redes sociais transformaram atenção em commodity. E agora a inteligência artificial está prestes a transformar produção intelectual em commodity.

Texto, imagem, vídeo, música, código, estratégia — tudo começa a ser gerado sob demanda.

O que nos coloca diante de uma situação inédita na história recente da cultura. Pela primeira vez, inteligência pode se tornar abundante.E quando algo se torna abundante, o mercado reage da única forma que sabe: Ele muda o que considera valioso.

Talvez esse seja o insight mais interessante que emerge das conversas no SXSW deste ano. Não como uma tese explicitada em um único painel, mas como um padrão que aparece quando conectamos pontos aparentemente desconectados.

À medida que inteligência, trabalho e até interações emocionais se tornam abundantes e sintetizáveis, o mercado começa a precificar aquilo que continua raro: a experiência humana irredutível.

Esse deslocamento de valor ajuda a explicar uma série de movimentos que, isoladamente, podem parecer apenas curiosidades culturais.

Pense no esporte. Durante décadas, a lógica da mídia esportiva foi baseada no espetáculo da competição. O jogo era o produto. O atleta, parte da engrenagem do espetáculo.

Agora algo está mudando.

As organizações esportivas começam a perceber que o conteúdo esportivo em si já não sustenta o mesmo nível de conexão cultural. O jogo continua importante, mas o que cria vínculo é a pessoa.

É quando o capacete sai. Quando aparece a família. Quando o atleta revela estilo, humor ou vulnerabilidade.

Não por acaso, cada vez mais atletas se transformam em creators, canais de mídia e marcas culturais próprias.

Em um mundo saturado de conteúdo, o que gera conexão não é apenas performance. É humanidade.

A mesma lógica aparece em outro território aparentemente distante: o entretenimento ao vivo.

Durante duas décadas, o consumo cultural foi progressivamente privatizado. Cada pessoa com seu streaming. Seu feed. Seu algoritmo. Sua bolha.

Mas agora começa a surgir um fenômeno curioso. As pessoas estão tentando encontrar formas de viver cultura ao mesmo tempo que outras pessoas.

Podcasts lotam teatros para gravações ao vivo. Fun clubs viram novos espaços sociais. Comunidades organizam watch parties de séries. Clubes do livro silenciosos começam a aparecer em cidades inteiras.

Nada disso deveria prosperar em um mundo onde tudo pode ser consumido de casa, Mas prospera. E cresce.

Porque o valor ali não está apenas no conteúdo. Está na sincronia humana que o digital não consegue escalar com a mesma facilidade.

Estar no mesmo lugar, No mesmo momento, Sentindo a mesma coisa, É o tipo de experiência que não pode ser replicada infinitamente por algoritmo.

E justamente por isso começa a valer mais.

Esse deslocamento de valor também está mudando, silenciosamente, o papel das marcas.

Durante muito tempo, marketing foi essencialmente uma disputa por atenção. Inserções publicitárias, campanhas, presença constante no feed.

Mas em uma cultura organizada por comunidade e experiência compartilhada, atenção deixa de ser o ativo central e perde espaço para o pertencimento.

As pessoas não saem de casa para assistir publicidade mas para viver algo.

E isso cria uma nova regra para marcas que querem participar da cultura: antes de tentar liderar a conversa, elas precisam provar que sabem habitar o contexto.

Quando a ordem se inverte, quando uma marca tenta assumir protagonismo sem legitimidade cultural, o resultado costuma ser previsível: rejeição instantânea ou, pior ainda, constrangimento coletivo.

Depois de anos tentando eliminar fricção social com tecnologia, estamos redescobrindo o valor da fricção humana.

Do encontro inesperado.

Da conversa improvisada.

Do momento que nenhum algoritmo previu.

O SXSW sempre funcionou como radar cultural.

E, se as pistas observadas aqui este ano estiverem corretas, estamos entrando em uma nova fase da economia da atenção.

Uma fase em que conteúdo continuará abundante.

Produção continuará automatizada.

E inteligência continuará se multiplicando.

Mas justamente por isso o valor começa a migrar para outro lugar.

Para aquilo que continua impossível de replicar em escala perfeita.

Personalidade.

Presença.

Carisma.

Improviso.

Memória vivida.

Em outras palavras:

se o sintético escala, o humano premiumiza.

E no próximo ciclo cultural, talvez a vantagem competitiva mais poderosa não seja tecnológica.

Talvez seja simplesmente parecer (e ser) humano de verdade.