Conexão Austin

Nenhum feed te dá o que você ainda não sabe que precisa

No SXSW, as melhores histórias não estão na agenda, mas nos encontros inesperados

Gustavo Teitelbaum

Co-CEO da Lukso 12 de março de 2026 - 17h44

Ano passado fui ao SXSW pela primeira vez. E as melhores memórias que eu tenho não são das palestras, são dos momentos que não estavam na agenda oficial. Da conversa aleatória que não vai aparecer no resumo do evento duas semanas depois.

Do encontro inesperado que não tinha como chegar por notificação. Por isso, esse ano eu estou de volta.

A programação oficial é incrível, mas o que mais me atrai é o que acontece nos side events. Vou participar de uma corrida matinal, na qual a pauta é inovação, unindo pessoas que têm muitas coisas em comum. Vou ao shabbat da comunidade tech de Austin, que reúne profissionais de todo o mundo num ritual de pausa intencional no meio do evento mais frenético do ano. Isso sem falar em tudo que ainda nem consigo planejar. Essas experiências não têm transmissão ao vivo. Não vão estar disponíveis depois. E é exatamente por isso que tanto me atraem.

Sair da zona de conforto às vezes é literalmente pegar um voo. O algoritmo infelizmente ainda não tem essa capacidade. Ele é um espelho muito bem calibrado do que você já gosta, do que já procurou, do que ele calcula que você quer ver. É eficiente, mas é uma bolha. Ele não sabe o que você ainda não sabe que precisa. E o que você ainda não sabe que precisa é exatamente o que muda a direção de um profissional.

Passamos horas conectados, com acesso a mais conteúdo do que qualquer geração anterior e ainda assim saímos das telas com a sensação de que perdemos alguma coisa. Parece que trocamos os sentidos do presencial pelas notificações do remoto.

Só que as melhores histórias nascem de experiências no mundo real. De ter estado em algum lugar, de ter sentido algo, de ter observado um detalhe que o resumo do evento não captura. O repertório de um bom narrador é construído com presença: física, intencional, às vezes até inconveniente. Num momento em que a IA gera conteúdo infinito em segundos, a vantagem competitiva não está em produzir mais. Está em ter acumulado estímulos que nenhum modelo consegue replicar, porque esses estímulos ainda não foram postados em lugar nenhum.

Essa coluna vai ser a tentativa de transformar esses estímulos em conteúdo. Não um diário de evento. Um exercício de observação sobre o que o mercado de comunicação precisa prestar atenção: o que está acontecendo lá que vai chegar aqui, o que parece tendência e é barulho, o que parece barulho e é tendência.

Nos vemos em Austin.