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Quando audiência vira inteligência

Comunidades viram dados: IA antecipa consumo e o e-commerce migra da busca para descoberta orientada

Thiago Bispo

Vice-presidente de Negócios da BR Media 16 de março de 2026 - 18h31

Estamos aqui no SXSW e um dos painéis que mais me chamou atenção tinha um título que pode parecer técnico, mas que revela uma mudança interessante de mercado: Founder-Led Growth: Turning Audience Signal into AI-Powered Commerce.

A conversa foi conduzida por duas jovens fundadoras que representam bem uma nova geração de empreendedores digitais: Phoebe Gates e Sophia Kianni, criadoras da startup de tecnologia e comércio Phia.

Ambas, oriundas de Stanford University, umas das mais prestigiadas universidades do mundo. E ambas não terminaram o curso para empreender – o que nos leva a refletir sobre o papel atual do ensino tradicional… Mas essa é uma conversa para outra hora.

Enfim, Phoebe Gates é conhecida por muitos por ser filha de Bill Gates, mas sua trajetória já começa a se construir de forma própria no ecossistema de tecnologia e empreendedorismo. Sophia Kianni, ganhou notoriedade internacional como ativista climática ainda adolescente, chegando a atuar como conselheira de organizações ligadas à ONU e a temas de sustentabilidade. Hoje, as duas se unem em uma iniciativa que combina tecnologia, cultura digital e e-commerce.

O projeto delas, a startup Phia, nasce com uma tese clara: a próxima geração de plataformas de consumo será construída a partir dos sinais das comunidades digitais. A ideia central é relativamente simples, mas extremamente poderosa.

Durante anos os e-commerce funcionaram principalmente a partir de busca. O consumidor sabia o que queria e procurava diretamente em um marketplace. Mas o comportamento das pessoas está mudando ou até já mudou.

Hoje grande parte das descobertas de produtos acontece em redes sociais, em vídeos curtos, em recomendações de creators ou em conversas nas comunidades digitais. O problema é que essa descoberta social ainda está desconectada da infraestrutura de compra.

E é justamente nesse espaço que surge a proposta da Phia. O aplicativo que elas estão construindo funciona como um assistente de compras alimentado por inteligência artificial, que aprende a partir do comportamento das comunidades.

Curtidas, comentários, compartilhamentos e conversas deixam de ser apenas métricas de engajamento e passam a ser interpretados como sinais de preferência e intenção. Ao invés de esperar que alguém pesquise um produto, a plataforma tenta antecipar desejos com base nos padrões que emergem da audiência.

É um modelo que transforma a lógica do comércio digital. E aqui eu entro em uma reflexão: Durante muitos anos a indústria operou com um fluxo relativamente previsível: produto, marketing e depois audiência. As marcas criavam algo, comunicavam e então buscavam consumidores. O que começa a emergir agora é o caminho inverso. Primeiro vem a audiência. Depois vêm os sinais de comportamento. A partir desses sinais, surgem insights e oportunidades de produtos.

Essa lógica ajuda a explicar por que tantas marcas criadas por creators ou fundadores digitais conseguem crescer com tanta velocidade. Elas nascem a partir de comunidades que já existem. Para quem trabalha com creator economy, esse movimento faz muito sentido.

Creators não são apenas veículos de comunicação. Eles estão inseridos em comunidades específicas, entendem linguagens culturais e percebem tendências antes que elas se tornem mainstream. Eles observam reações, perguntas, comentários e padrões que muitas vezes passam despercebidos pelas grandes estruturas de marketing.

Na prática, as comunidades digitais funcionam como sensores culturais. E essa talvez seja a grande mudança estrutural que estamos começando a ver. Hoje a atenção continua sendo importante, mas relevância cultural se tornou ainda mais decisiva. E relevância cultural nasce nas conversas das pessoas. É por isso que cada vez mais vemos marcas tentando interpretar a cultura em vez de simplesmente interrompê-la.

No Brasil, essa transformação é particularmente interessante. O país é um dos mercados mais avançados do mundo em cultura digital. Creators têm uma presença extremamente forte no cotidiano das pessoas e participam de decisões que vão muito além do entretenimento, influenciam comportamento, consumo e estilo de vida. Isso cria uma oportunidade enorme para quem souber transformar audiência em inteligência.

O grande desafio agora não é apenas trabalhar com creators em campanhas. É construir modelos capazes de transformar esses sinais de audiência em insights estruturados para marcas. Se o que vimos no SXSW se confirmar nos próximos anos, a creator economy entrará em uma nova fase. A primeira foi marcada pela influência e pelo alcance. A próxima provavelmente será definida pela inteligência de audiência.

E quem souber ouvir melhor as comunidades terá uma vantagem enorme na construção das marcas do futuro.