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IA – Provocações

A IA revoluciona negócios, mas a criatividade humana deve liderar a ética e a soberania cognitiva da inovação

Marienne Coutinho

KPMG 19 de março de 2026 - 15h49

O SXSW 2026 chegou ao fim. A trilha principal que segui neste ano foi a da inteligência artificial (IA). Você já está cansado de ouvir sobre IA, não é? Mas, a verdade é que a IA veio não apenas para ficar, mas para revolucionar o mundo, nossas vidas pessoais e as nossas empresas. E quando tudo está se transformando a todo tempo, e quando as novidades aparecem diariamente, não existe outra opção a não ser nos atualizarmos, decifrarmos os impactos para os nossos negócios, desenharmos e executarmos um plano (não apenas para mitigar riscos, mas para aproveitarmos as oportunidades).

O SXSW não é um fórum técnico para dissecar as inovações tecnológicas para experts. O objetivo do principal evento de inovação do mundo é trazer reflexões sobre futuros prováveis ou possíveis, que podem e devem ser construídos por nós, seres humanos. Cada um, no seu universo, precisa recorrentemente tomar decisões que no melhor cenário devem ser bem-informadas.

Como decidir sem compreender onde estamos e para aonde vamos? Hoje em dia existem poucas certezas, e inovação é exatamente sobre navegar em mares turbulentos, turvos e desconhecidos a partir de sinais mais fracos ou mais fortes, numa tentativa de acompanharmos os movimentos e nos diferenciarmos no mercado a partir da leitura de cenários. Como disse o head de programação do SXSW 2026, Greg Rosenbaum, “A criatividade humana não pode apenas sobreviver a essa revolução tecnológica. Ela deve liderar a transformação”.

O que existe hoje que pode ser incorporado ao meu negócio para diversificar o portfólio, aumentar penetração de mercado, market share, rentabilidade, satisfação dos clientes, gerar mais eficiência, melhorar o posicionamento e visibilidade da minha marca, atrair, reter e aproveitar melhor os talentos? A IA pode tudo isso.

No SXSW, as principais discussões deste ano estiveram focadas na ética no desenvolvimento e utilização da IA. Listo abaixo as que mais gostei:

– A sessão “How We Could Lose Control: Avoiding the Paths to Runaway AI” (Como Podemos Perder o Controle: Evitando os Caminhos para a IA Descontrolada), de Tristan Harris e Anthony Aguirre, abordou os riscos de a humanidade perder o controle da IA explicando como isso poderia ocorrer (concentração de poder, incentivos não transparentes, escolhas de design, desalinhamento sistêmico) e o que poderia ser feito para evitarmos esse desfecho. Motivações de negócios nem sempre são evidentes, e não as enxergar dificulta uma avaliação justa, gerando desconfiança e conflitos de interesse. Decisões de design afetam funcionalidade, usabilidade e segurança, impactando os resultados e a interação dos usuários, nem sempre de forma positiva. Até que ponto setores privado, público e sociedade trabalham de forma coesa em direção a objetivos comuns?

– Na mesma linha, o filme “The AI DOC: Or How I Became An Apocaloptimist” (O Documentário de IA: Ou Como Me Tornei um Apocalíptico), com estreia no evento, mostrou a jornada de um homem que está prestes a se tornar pai para compreender as impressionantes promessas e os perigos da tecnologia mais poderosa já criada pela humanidade.

– Em “Why the Future of AI Must be Human Centric” (Por que o Futuro da IA Deve Ser Centrado No Ser Humano?), de Rana el Kaliouby e Bob Safian, a provocação foi sobre como podemos (e devemos) colocar o fator humano no centro da revolução da IA para aproveitarmos a oportunidade econômica para desbloquear o potencial humano e resolver os grandes problemas da humanidade. Como humanizar a tecnologia antes que ela nos desumanize?

– Na sessão “AI, Your Brain & The Battle For Cognitive Sovereignty” (IA, Seu Cérebro e a Batalha pela Soberania Cognitiva), de Nataliya Kosmyna e Vanessa Mathias, o debate foi sobre o impacto da AI na nossa capacidade e motivação para pensarmos. A IA está expandindo ou arruinando nossas mentes? Pensaremos de forma mais clara (e para além do conteúdo por ela gerado) ou ficaremos acomodados enquanto nossas perspectivas são manipuladas? O gap cognitivo entre pobres e ricos ficará ainda maior? Os direitos relacionados com a nossa saúde mental e bem-estar cerebral estão sendo considerados e protegidos de forma intencional ou as prioridades são engajamento e tempo de uso? A reflexão que fica é: queremos delegar nosso raciocínio e pensamentos?

De volta às nossas empresas e rotina, o que faremos com toda essa inquietação? Quais ações poderiam ser promovidas por nós ou como podemos influenciar as dos outros? Eu ainda estou processando tudo o que ouvi nas salas ou fora delas, e absorvendo a velocidade e impactos da IA. Mas será que, de fato, temos como influenciar os acontecimentos macro ou apenas minimizar ou protelar os impactos no nosso entorno?