O discurso chegou antes da realidade
O hiato entre a promessa da IA e a prática é enorme: produtividade cai, enquanto terapia e companhia lideram
Austin fez 37°C ontem e amanheceu com 7°C hoje. Só senti um gap maior do que esse entre o discurso sobre o potencial da IA e o que de fato ela consegue fazer. E essa semana o SXSW mostrou isso de várias formas.
Fui ao workshop de criação de agentes da Vercel, uma das maiores plataformas de desenvolvedores independentes, com a promessa de que cada um sairia de lá com o seu próprio agente de IA. O que eles não esperavam é que colocar 80 pessoas para usar a ferramenta ao mesmo tempo quebraria o próprio produto. Tiveram que pausar tudo e ligar para algum humano liberar mais capacidade da máquina, para que cada um ali na sala pudesse, enfim, criar seu próprio agente.
Isso me lembrou outras duas coisas que aconteceram no mesmo dia. Primeiro, Ian Bearcraft destacou um post de um dos principais pesquisadores de IA, Andrej Karpathy, dizendo que nunca se sentiu tão atrasado. Se um dos maiores especialistas no tema escreveu isso, o que resta para nós? Segundo: num dos melhores eventos paralelos até aqui, o brasileiro Fabio Ranieri, Diretor de Inovação da HP, trouxe uma sensação parecida. Testaram mais de 30 ferramentas para tentar ganhar produtividade e a verdadeira solução só veio quando decidiram ligar para a Adobe pedindo para construir algo juntos.
O que todos esses momentos têm em comum é que ninguém planejou que ia precisar de ajuda. E mais do que isso: até mesmo as maiores referências no mundo em inovação estão com medo de ficar para trás.
Depois, o assunto ganhou vida em um debate entre OpenAI, Nações Unidas e a autora e pesquisadora de saúde social, Kasley Killam. O discurso corporativo do ChatGPT promete produtividade acima de tudo: trabalhe mais rápido e automatize tudo que é repetitivo. É uma narrativa bem construída, mas Killam trouxe dados para discordar: o principal uso de IA hoje é terapia e companhia. Em segundo lugar, organizar a própria vida. Em terceiro, encontrar propósito. A tal da produtividade saiu do top 10. É a realidade dizendo o que realmente funciona na prática.
Ainda sobre a distância entre o planejamento e a prática, Tobias Peyerl, da OpenAI, disse que a empresa está contratando psicólogos porque não tinha previsto que as pessoas usariam o ChatGPT para relacionamentos. Ele ainda disse que a forma dos seres humanos usarem esse tipo de ferramenta vem mudando tão rápido que nem as próprias plataformas conseguem acompanhar. Mas concluiu dizendo que acredita no discernimento das pessoas para fazer o melhor uso possível da IA.
No final desse debate, abriram para perguntas e aí veio a melhor intervenção do
dia. Dizer que cabe a cada indivíduo encontrar seu equilíbrio com a tecnologia é que nem dizer que cabe a cada um evitar ser atropelado quando estiver atravessando a rua. E isso faz todo sentido: é muito mais fácil terceirizar o problema das ferramentas para as pessoas.
A temperatura em Austin vai voltar a subir amanhã. Já o gap entre discurso e realidade, por enquanto, continua muito grande.