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O futuro é o que decidimos não terceirizar para a IA

O debate não é o avanço da IA, mas o que decidimos preservar de humano em um mundo de terceirização mental

Ana Paula Rodrigues

CMO da Suhai Seguradora 18 de março de 2026 - 15h08

Nos últimos dias de SXSW podemos ver que os assuntos sobre inteligência artificial, comportamento, economia, relações humanas, política e cultura não evoluem mais separadamente. Eles se entrelaçam, se amplificam e dão origem a novos cenários em uma velocidade que desafia qualquer lógica tradicional de planejamento. É nesse ponto que a discussão deixa de ser sobre tecnologia e passa a ser, essencialmente, sobre o ser humano. Porque, no fim, sempre foi sobre isso.

A palestra de Amy Webb, por exemplo, esteve longe de ser apenas mais uma leitura de tendências. O que ela apresentou foi, na prática, um alerta sobre a natureza da mudança que estamos vivendo. Já não faz sentido interpretar o mundo como um conjunto de ações que caminham paralelamente. O que está acontecendo agora é diferente: essas forças estão se encontrando, se sobrepondo e, em muitos casos, colapsando umas nas outras, criando zonas de convergência que aceleram transformações de forma exponencial.

Quando Amy Webb fala sobre “human augmentation”, termo que se refere a ampliação das capacidades humanas por meio da tecnologia, ela não está apenas descrevendo avanços técnicos. O que está em jogo é uma mudança ainda mais profunda: a tecnologia deixa de ser uma ferramenta externa, que usamos de forma pontual, e passa a funcionar como uma extensão direta da nossa capacidade de pensar, decidir e agir.

Nesse contexto, não se trata mais apenas de eficiência, mas de redefinir o próprio limite do que somos capazes de fazer. E é justamente nessa transição que temos uma nova lógica competitiva, em que a vantagem não vem só do acesso à tecnologia, mas de como e o quanto cada indivíduo ou organização escolhe integrá-la.

Nesse cenário, a vantagem competitiva deixa de estar no “ter” e passa a estar no “integrar”. E, inevitavelmente, isso abre uma nova camada de desigualdade, não só entre pessoas, mas entre empresas e mercados inteiros.

A era da terceirização emocional já começou

À medida que a vantagem competitiva deixa de estar no “ter” e passa a estar no “integrar”, percebemos que a tecnologia não apenas amplia nossas capacidades, mas começa a se infiltrar em áreas mais íntimas de nossas vidas. Não se trata apenas do que conseguimos fazer, mas de como sentimos, nos conectamos e nos relacionamos.

É nesse ponto que surge o “emotional outsourcing”, o qual reforça o quanto a inteligência artificial deixa de ser apenas uma ferramenta para potencializar tarefas e passa a ocupar espaços que antes eram exclusivamente humanos, delegando parte de nossas emoções, relações e conexões, atingindo um campo de escuta, companhia, acolhimento e diálogo. E isso não acontece por acaso.

Aqui, a conexão com o conceito de mattering, discutido por Jennifer Wallace, é direta: as pessoas querem se sentir relevantes. Querem ser vistas, ouvidas, reconhecidas. Querem importar para alguém e, em muitos casos, as máquinas já estão conseguindo oferecer isso, de forma constante, disponível e sem julgamento. A pergunta, então, não é “por que isso está acontecendo?”, mas sim, “o que isso revela sobre o vazio que estamos tentando preencher?”.

Pela primeira vez, não estamos só automatizando tarefas. Estamos terceirizando a nós mesmos. Ao longo da história, sempre buscamos evoluir. Da Revolução Industrial à era da internet, cada avanço tecnológico ampliou nossa capacidade de produzir, escalar e transformar o mundo. Mas, havia uma constante, o pensamento continuava sendo humano. Agora, não mais.

Entre cultura e contracultura, o equilíbrio ainda será construído

Diferente das revoluções anteriores, essa transformação não amplia apenas nossas capacidades externas, ela redefine onde nossas habilidades começam e terminam, invadindo territórios íntimos da experiência humana. O verdadeiro risco não está na tecnologia em si, mas em deixarmos que ela avance sem reflexão, sem escolher conscientemente o que queremos manter como essencialmente humano.

Estamos adotando tecnologias em uma velocidade muito maior do que estamos refletindo sobre elas. E, talvez, a pergunta mais importante agora não seja “o que a IA pode fazer?”, mas sim, “o que nós queremos continuar fazendo?”, “O que não deveria ser terceirizado?” e “O que precisa permanecer humano, mesmo quando pode ser automatizado?”.

Se existe uma certeza na história da humanidade, é que toda grande transformação gera uma reação. Entre esses extremos, o equilíbrio não será dado, será construído. E, até lá, vamos errar bastante. A inteligência artificial não surgiu do nada. Ela é resultado do mesmo impulso que sempre moveu a humanidade: reduzir limitações, resolver problemas, criar novas possibilidades.

Queremos viver mais, melhor, com mais eficiência, menos dor, mais controle. Criamos tecnologia para isso. Mas, agora chegamos a um ponto em que essa criação começa a nos levar de volta ao ponto de partida e isso não é dar um passo para trás. É, na verdade, o momento em que percebemos que, por mais avançados que sejamos, ainda precisamos sentir, nos conectar e ser humanos.