SXSW

O paradoxo da produtividade na era da IA

Se a tecnologia nos faz ganhar tempo, por que estamos cada vez mais ocupados?

Herick Ferreira

Head de Growth da CBA B+G 12 de março de 2026 - 15h27

Às vésperas do SXSW, uma das promessas mais repetidas sobre inteligência artificial é o aumento exponencial da produtividade. Ferramentas que automatizam tarefas, aceleram análises e permitem que façamos em minutos o que antes levávamos horas. Os dados confirmam essa transformação: estudos recentes indicam ganhos entre 20% e 40% em atividades que utilizam IA generativa. A tecnologia parece realmente ampliar a capacidade humana de produzir.

Mas, na prática, o que muitas equipes estão vivendo não é exatamente mais tempo livre.

É mais demanda. Mais projetos, mais entregas, mais expectativas, mais estímulos ao mesmo tempo. A produtividade aumenta, mas o volume de trabalho também. Em vez de liberar espaço, a eficiência passa a alimentar um novo tipo de pressão: a da sobrecarga cognitiva.

Nunca foi tão fácil produzir. E nunca foi tão difícil acompanhar tudo o que pode ser produzido.

Historicamente, grandes inovações prometeram nos dar mais tempo mas o que aconteceu, muitas vezes, foi o contrário: a capacidade produtiva cresceu, mas as expectativas cresceram junto.

Como líder, esse dilema fica cada vez mais evidente para mim. A questão já não é apenas adoção tecnológica: é gestão de atenção. A IA amplia a velocidade de execução, mas, sem critérios claros, também ampliam o volume de estímulos que as equipes precisam processar. O resultado é um ambiente em que todos conseguem fazer mais, mas poucos conseguem pensar melhor.

Nesse contexto, o papel da liderança muda. Não se trata apenas de incentivar produtividade.

Trata-se de criar limites inteligentes para que eficiência não se transforme em exaustão, o que passa por decisões concretas: priorização real de projetos, redução de ruído operacional e proteção do tempo de concentração das equipes.

Produtividade não pode ser apenas sobre volume de entregas. Precisa ser sobre qualidade de trabalho e qualidade de vida.

À medida que a inteligência artificial se torna infraestrutura do trabalho, a discussão mais importante deixa de ser tecnológica e passa a ser humana. O verdadeiro avanço não está em produzir infinitamente mais, está em finalmente usar a tecnologia para recuperar algo que se tornou escasso: tempo para pensar, conviver e viver.

E eu sinceramente espero que essa seja uma das conversas mais relevantes do SXSW deste ano. Não apenas como usar inteligência artificial para acelerar processos, mas como redefinir o próprio significado de produtividade.