SXSW

Paradoxo do futuro: quanto mais tecnologia, mais humanidade

A tecnologia avança, mas o futuro exige resgatar o que é humano: imaginação, ócio e o valor do erro

Karina Israel

CEO da YDreams Global 13 de março de 2026 - 11h45

Austin amanheceu com 8 graus. Apesar do frio, a cidade já está tomada pela energia do SXSW. Pelas ruas, nos cafés e nos corredores das conferências, o que se ouve são conversas sobre inteligência artificial, novos modelos de criação, o futuro do trabalho e as transformações que estão acontecendo quase em tempo real.

Em meio de tanta tecnologia, uma sensação curiosa aparece com frequência. Quanto mais avançamos com as máquinas, mais cresce a necessidade de reafirmar aquilo que nos torna humanos.

É como se estivéssemos todos descendo pelo buraco do coelho de Alice. Só que, desta vez, o País das Maravilhas é feito de algoritmos, prompts e sistemas capazes de gerar imagens, textos e soluções em segundos. É fascinante. É vertiginoso. E ao mesmo tempo provoca uma pergunta silenciosa: o que continua sendo profundamente humano nesse novo cenário?

Imaginação. Criatividade. Gentileza. Convivência. Cuidado. O prazer de fazer algo com as mãos. Pequenos gestos que pareciam triviais e que agora ganham uma nova dimensão.

Existe quase um movimento de retorno às origens, mas não como nostalgia. É um retorno revisitado pelo presente. Não se trata de rejeitar a tecnologia, mas de entender que quanto mais sofisticadas se tornam as ferramentas, mais importante se torna aquilo que não pode ser automatizado.

Entre as reflexões que mais me marcaram nestes dias está uma contradição interessante. Falamos muito sobre a importância da imaginação para o futuro. Dizemos que as próximas gerações precisarão pensar de forma criativa, formular novas perguntas e imaginar caminhos que ainda não existem. Mas, ao mesmo tempo, estamos criando nossas crianças em rotinas cada vez mais estruturadas, cheias de tarefas, compromissos e expectativas.

A imaginação, no entanto, pede mais. Ela pede tempo. Pede espaço. Pede liberdade. Pede a possibilidade de explorar sem saber exatamente onde aquilo vai dar.
E, talvez mais importante, pede um ambiente onde o erro não seja imediatamente julgado.

Outro ponto recorrente nas discussões aqui é a ideia de fricção. Durante muito tempo associamos progresso à eliminação do atrito. Queremos respostas mais rápidas, soluções imediatas, caminhos mais eficientes. E, de fato, grande parte da inovação tecnológica nasce desse desejo de simplificar. Mas quando se trata de aprendizado, criatividade e desenvolvimento humano, a fricção tem um papel fundamental.

É no desconforto de não saber que nasce a curiosidade. É na tentativa e erro que surgem novas soluções. É no tempo de maturação de uma ideia que algo realmente original aparece. Eliminar a fricção pode até tornar as coisas mais fáceis. E também pode empobrecer a experiência de aprender, criar e descobrir.

Talvez por isso tantas conversas sobre tecnologia aqui em Austin acabem voltando, de forma quase inesperada, para temas profundamente humanos. Como cultivamos a imaginação. Como preservamos a curiosidade. Como criamos espaço para o brincar, para o encontro, para o pensamento que não precisa nascer pronto, muito menor correto.

Se estamos mesmo atravessando um novo buraco do coelho, o desafio talvez não seja apenas entender para onde a tecnologia está nos levando. O desafio é lembrar o que precisamos levar conosco nessa viagem.

Porque, no final, o futuro pode até ser cada vez mais tecnológico. E ainda continuará dependendo profundamente da capacidade humana de imaginar aquilo que ainda nem sequer existe.