Conexão Austin

Quando a tecnologia saiu do centro

O foco mudou do "o que a tecnologia faz" para o "que ela faz conosco", o humano volta ao centro

Maria Claudia Mestriner

Head de Estratégia e BI da PROS 19 de março de 2026 - 12h30

Pela primeira vez em cinco anos vindo ao SXSW 2026, saio de Austin com menos downloads no celular e muito mais perguntas na cabeça.

Durante muito tempo, a experiência aqui era quase previsível: eu voltava com uma lista de novos apps, plataformas emergentes, termos técnicos e frameworks práticos sobre como fazer melhor, mais rápido, mais escalável. Era um festival sobre o futuro da tecnologia, mas algo mudou e não foi sutil.

Do “o que fazer” para “por que estamos fazendo?”

Em 2026, o SXSW deixou de ser um festival centrado em tecnologia para se tornar um festival sobre comportamento humano em um mundo moldado por tecnologia.

A tecnologia não desapareceu, ela foi deslocada. Saiu do centro da conversa e virou pano de fundo. O que emergiu no lugar foi uma inquietação coletiva: não estamos mais tentando entender o que a tecnologia faz, mas o que ela está fazendo com a gente.

Uma curadoria que aponta para dentro

Essa mudança não foi isolada. Ela apareceu de forma consistente nas falas mais relevantes do festival.

Amy Webb praticamente enterrou o conceito de trend reports ao mostrar que o mundo ficou complexo demais para ser explicado por listas, o futuro agora é sobre convergências.

Tristan Harris foi direto ao ponto: construímos sistemas poderosos demais para operar sem regulação e, ainda assim, seguimos tentando. A IA amplifica um problema que já existia: tecnologias que moldam comportamento sem transparência, sem accountability e com pouca governança. A questão agora não é se devemos regular, mas se ainda estamos a tempo de fazer isso de forma eficaz.

Sam Jordan trouxe um alerta quase contraintuitivo: ao eliminar fricção com IA, podemos estar eliminando também os processos que formam intuição, caráter e pensamento crítico.

Ian Beacraft deslocou a conversa sobre trabalho para um território mais profundo: não se trata mais de produtividade ou eficiência, mas de como o papel humano se redefine dentro de sistemas cada vez mais autônomos. À medida que delegamos execução, decisão e até criatividade para a IA, a pergunta deixa de ser “o que fazemos” e passa a ser “onde ainda somos insubstituíveis”.
Esther Perel, em conversa com Spike Jonze, trouxe talvez a camada mais humana de todas: em um mundo hiperconectado, estamos cada vez mais desafiados a sustentar intimidade, desejo e presença real.

Kasley Killam posicionou a saúde social como um dos grandes temas da próxima década. Em um cenário de isolamento crescente, construir conexão deixa de ser apenas uma questão pessoal e passa a ser responsabilidade também de empresas, marcas e instituições.

O desconforto como sinal

Se em outros anos o SXSW era sobre encantamento, este ano foi sobre desconforto. Mas um desconforto produtivo.

A sensação recorrente não era “uau, preciso testar isso”, mas: “será que estamos indo rápido demais sem entender as consequências?”

Esse shift é relevante, porque indica uma maturidade, ou talvez uma saturação. Depois de anos correndo atrás de inovação, começamos a perceber que o verdadeiro desafio não é criar o novo, mas sustentar o humano dentro dele.

E Spielberg lembrou o essencial

Entre tantas discussões sobre IA, sistemas e futuro, foi simbólico que um dos momentos mais marcantes tenha vindo de Steven Spielberg. Não pela tecnologia, mas pela defesa daquilo que nenhuma tecnologia substitui: a capacidade humana de contar histórias que fazem sentido para outras pessoas.

No fim, talvez seja isso: o futuro não é mais sobre tecnologia

Saio do SXSW 2026 com uma sensação diferente. Menos respostas e mais responsabilidade.

Se nos últimos anos o festival nos ensinou a construir o futuro, este ano ele parece ter feito uma pergunta mais difícil: que tipo de futuro vale a pena construir?